terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Aritmética macabra de Trump e a guerra que o mundo não pediu

Vinte por um: a aritmética macabra de Trump e a guerra que o mundo não pediu

A aritmética macabra praticada por Trump no Golfo Pérsico é a coisa mais irresponsável que vi um presidente americano fazer em muito tempo, e olha que a régua já era baixa. O líder republicano transformou uma escalada militar em contagem de pontos, como se vidas fossem números de um placar esportivo. O mundo não pediu essa guerra, mas a conta já está chegando para todos.

Recapitulando para quem não acompanhou. A guerra entre Estados Unidos e Irã começou em fevereiro, com os bombardeios americanos e israelenses que mataram parte da cúpula iraniana. Depois de meses de destruição, os dois lados fecharam em junho um memorando para parar o fogo e reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Era frágil, mas era paz. Durou poucas semanas.

Nesta semana o Irã voltou a atacar navios comerciais em Ormuz, e os Estados Unidos responderam atingindo cerca de 170 alvos militares iranianos em duas ofensivas, reimpondo sanções ao petróleo e voltando a bloquear o estreito. O Irã revidou mirando bases americanas no Kuwait e no Bahrein. Um bombeiro morreu num ataque a um aeroporto no sudeste do Irã. Isso não é força, é um pavio aceso no barril de pólvora mais perigoso do mundo.

Vinte por um: a aritmética macabra de Trump

E o que o homem mais poderoso do planeta tinha a dizer? Do palco da cúpula da OTAN, em Ancara, Trump soltou pérolas: “acho que acabou”, “não quero mais lidar com eles”, e a frase que me tirou o sono, dita com um sorriso: “eles batem uma vez, a gente bate vinte, e foi o que fizemos ontem à noite. Vinte por um”. Ele transformou mortes em placar de jogo. Perguntado se os EUA voltavam à guerra total, respondeu que negociar era perda de tempo e completou: “vamos só terminar o serviço”.

Terminar o serviço. Que serviço? Não existe serviço limpo numa guerra dessas. Existe petróleo a 78 dólares o barril, existe gasolina mais cara no posto, existe uma região inteira à beira do abismo e existe um sujeito que trata política externa como reality show, medindo tudo por quem parece mais durão na frente das câmeras. Essa lógica da aritmética macabra não distingue civis de combatentes, não planeja o dia seguinte, não pensa nas consequências globais.

Preciso ser honesto sobre de onde falo. Não sou ingênuo com o regime iraniano. É uma teocracia autoritária, que reprime o próprio povo e financia violência pela região. Não estou aqui para defender aiatolá nenhum. Mas ser contra o regime do Irã não me obriga a aplaudir a insanidade do outro lado. Dá para condenar os dois. E entre um governo autoritário do outro lado do mundo e um presidente que, com poder de fogo para incendiar a economia global, escolhe a bravata, meu incômodo maior é com quem tem mais poder e mais responsabilidade. Isso é Trump.

A guerra sempre vira negócio

No fim, é sempre a mesma lógica. A guerra vira negócio. O bloqueio ao estreito mexe no preço do petróleo, o preço do petróleo mexe no mercado, e tem muita gente ganhando dinheiro exatamente com o caos que empurra o resto do mundo para a fila do posto. É o livre mercado que tanto vendem: livre para especular com a sua conta de luz, com o seu litro de gasolina, com a comida que encarece quando o frete encarece. Livre para eles. Conta para você e para mim.

O Brasil sente cada solavanco. Somos importadores líquidos de derivados de petróleo; o diesel e a gasolina disparam sempre que o barril sobe. A aritmética macabra de Trump no Oriente Médio tem consequências diretas no bolso do brasileiro: inflação nos transportes, nos alimentos, na energia. E ninguém nos consultou.

O que mais me assusta não é nem a decisão isolada. É a leviandade. É um chefe de Estado que fala em guerra com a mesma naturalidade com que anunciaria um torneio de golfe. Não vi um plano. Não vi um objetivo claro além de bater mais forte. Não vi uma palavra sobre o dia seguinte, sobre os civis, sobre como isso termina sem levar o mundo junto. Vi ego. E ego com porta-aviões é a combinação mais cara que a humanidade inventou.

Eu queria muito estar exagerando. Queria que fosse só barulho de campanha. Mas os mísseis são reais, os mortos são reais, e o Estreito de Ormuz fechado é real para a economia de todo mundo, inclusive a nossa aqui no Brasil, que sente no bolso cada solavanco do petróleo.

Fica o registro, então, para quando cobrarem memória: não, isso não é liderança. Liderança não é contar mortos como pontos. O mundo não pediu essa guerra. Quem pediu foi o ego de um homem só. E a conta, como sempre, vai chegar para quem nunca foi consultado. A aritmética macabra de Trump deixou claro que, na falta de diplomacia, a única linguagem que resta é a dos mísseis. E ela nunca tem o último capítulo que promete.

Fontes consultadas

  • Newsweek — Iran War Ceasefire End Trump Statement — 08/07/2026 — link
  • CBS News — Trump hails ‘unity’ shown at NATO summit, despite recent tensions with European allies — 08/07/2026 — link
  • NPR — Trump says ceasefire with Iran is ‘over’ as NATO summit wraps — 08/07/2026 — link
  • CNBC — Trump says Iran called to make a deal after U.S. strikes; adds it’s unclear if war is back on — 09/07/2026 — link
  • CNN — US, Iran threaten more attacks as strikes continue, Trump attends NATO summit — 08/07/2026 — link
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