Soberania de chips: o primeiro passo do Brasil
Trabalho com tecnologia da informação há mais de uma década, e quem vive esse universo sabe que nenhuma aplicação inteligente existe no vácuo. Soberania de chips é a base física dessa conversa: sem fábrica própria de semicondutores, todo software, toda inteligência artificial, todo sistema bancário e de defesa fica refém de uma commodity importada. A notícia de que o Brasil inaugurou sua primeira fábrica de chips na USP, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, segundo o Blend do Dia, não é apenas um feito acadêmico. É o reconhecimento tardio de que não existe país digitalmente soberano sem algum domínio sobre o silício.
O Programa Brasil Semicon, criado pela Lei 14.968/2024 dentro da política Nova Indústria Brasil, pretende investir R$ 21 bilhões até 2026, uma média de R$ 7 bilhões por ano, em pesquisa, desenvolvimento e produção de semicondutores. Os números constam na página oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Quando li isso, pensei na quantidade de projetos de infraestrutura digital que já vi pararem por causa da indisponibilidade de um componente ou da flutuação cambial sobre um processador importado. Quem não controla a camada mais básica da tecnologia constrói sobre terreno alheio.
Por que a soberania de chips muda o jogo
Fui, por muito tempo, alguém que acreditou que o livre mercado resolveria tudo, inclusive a produção de itens estratégicos. A experiência me mostrou que isso é uma meia-verdade. Mercado resolve muitas coisas, mas não garante que um país tenha acesso a semicondutores avançados quando o fornecedor decide cortar o fornecimento por razões políticas ou geopolíticas. Taiwan, Coreia e Estados Unidos não chegaram onde estão por acaso. Construíram políticas industriais longas, com financiamento público, proteção inicial e articulação entre universidade, Estado e empresa privada. O Brasil, depois de décadas sem nenhuma estratégia consistente, começa a reagir.
O programa brasileiro é sério em suas intenções, mas modesto em suas metas. A meta oficial é sair de cerca de 1% para 2% de participação na cadeia global de chips até 2033. Isso é muito pouco diante da concentração asiática e até da europeia. Para quem controla enormes fatias do mercado, 1% é irrelevante. Para o Brasil, representa uma mudança de paradigma: de comprador passivo a produtor iniciante. Não é hora de comemorar, é hora de garantir que esse movimento não seja abandonado no meio do caminho, como aconteceu com tantas políticas industriais anteriores.
O BNDES também fez sua parte ao aprovar R$ 143,3 milhões para a Zilia Technologies expandir a produção de semicondutores em Atibaia, no interior de São Paulo. Esse tipo de financiamento é fundamental porque produção de chip não é startup de aplicativo. Exige capital intensivo, longo prazo de retorno e tolerância a risco que o mercado privado brasileiro nunca demonstrou sozinho. Eu mesmo duvidei, em outros tempos, da capacidade do Estado de atuar como catalisador. Hoje entendo que a questão não é Estado versus mercado, e sim como desenhar instrumentos que mobilizem os dois sem deixar o essencial nas mãos de terceiros.
A analogia que faço com frequência, no dia a dia de TI, é a de uma empresa que aluga todos os servidores que sustentam seus produtos. Se o provedor aumenta o preço, você aumenta o custo. Se o provedor cai, você cai junto. Não existe redundância real quando o fornecedor é único. O Brasil passou décadas como esse inquilino vulnerável do ponto de vista tecnológico, importando a quase totalidade dos chips que consomem nossos celulares, computadores, carros, equipamentos médicos e sistemas de defesa. A dependência não é apenas comercial, é estratégica.
Precisamos esticar a régua. O Brasil Semicon merece apoio, mas também cobrança. Deve haver metas intermediárias claras, formação de engenheiros especializados, incentivos para pesquisa aplicada e, principalmente, compras públicas que garantam demanda inicial para as fábricas nacionais. De nada adianta produzir chips se a indústria local continuar importando por hábito. A política industrial só funciona se houver integração entre quem produz e quem consome.
Soberania de dados, soberania de inteligência artificial e soberania nacional, todas essas palavras ficam vazias se o país não controla a infraestrutura física que sustenta o mundo digital. Não estou defendendo autossuficiência total, isso é impossível e desnecessário. Estou defendendo capacidade mínima de produção, pesquisa e desenvolvimento, para que quando houver uma crise global de fornecimento, como já houve durante a pandemia, o Brasil não pare completamente.
O movimento começou depois de décadas perdidas. Cabe a nós, agora, transformar uma planta pioneira em uma política de Estado duradoura. Não sei se o próximo governo terá o mesmo entusiasmo, e é por isso que programas como o Brasil Semicon não podem ser tratados como gasto de ocasião. São investimento em infraestrutura, no mesmo nível de uma rodovia ou de um porto. O chip é a nova ferrovia do século XXI, e o Brasil, finalmente, começou a construir seus trilhos.