Renan Santos candidatura: discurso velho e neoliberalismo barato
A candidatura de Renan Santos, anunciada com estrondo pela criação do partido Missão, chegou acompanhada de uma frase que resume o pacote: “Vamos matar quem roubar”, segundo a CNN Brasil. Mais uma vez, um nome que se apresenta como outsider, arauto de uma suposta nova política, recorre ao cardápio previsível de neoliberalismo barato e punitivismo midiático. O discurso pode render manchetes e engajar bolhas, mas revela uma enorme distância entre a bravata eleitoral e o que de fato as cidades brasileiras precisam.
Renan Santos, um dos fundadores do MBL, tenta agora ares de líder de um projeto próprio. O partido Missão, porém, já nasce com o DNA do movimento que o projetou: retórica altissonante, soluções simplistas e a insistência na ideia de que o Estado é apenas um estorvo, salvo quando serve para endurecer penas e encarcerar sem critério. O que incomoda não é o direito de se candidatar, isso é legítimo, mas a forma como se vende um pacote de promessas que não resiste a cinco minutos de conversa com quem conhece a realidade de uma favela ou de uma periferia.
Candidatura de Renan Santos: palavras fáceis, soluções inexistentes
O ponto mais sintomático do lançamento foi a declaração sobre as favelas. De acordo com a reportagem da CNN Brasil, Renan Santos prometeu urbanizá las e transformá las em bairros, sem dar qualquer pista sobre o que aconteceria com os moradores que lá vivem. Falar em acabar com favelas é fácil. Difícil é explicar como fazer isso sem despejar milhares de famílias, sem um plano habitacional robusto, sem investimento em saneamento, creches, postos de saúde e emprego. O candidato parece ignorar que uma favela não é um amontoado de barracos que se varre do mapa: é um território de vidas, de laços, de gente que, muitas vezes, chega às quatro da manhã do trabalho e não tem para onde ir.
A urbanização de assentamentos precários é uma bandeira antiga do urbanismo progressista, mas exige dinheiro público, regularização fundiária, participação comunitária e anos de intervenção contínua. Não se faz com decreto nem com palanque. Ao não detalhar o custo, a fonte de recursos nem o cronograma, Renan Santos repete o erro clássico de quem reduz políticas complexas a slogans. E, pior, o faz flertando com a ideia implícita de que o morador da favela é um problema a ser removido, não um cidadão a ser incluído.
Neoliberalismo e punitivismo: a receita que já conhecemos
A frase sobre matar quem rouba não é apenas agressiva: é a ponta de um iceberg ideológico. Ela se insere na tradição do “bandido bom é bandido morto”, que sempre rende aplausos em certos auditórios, mas jamais reduziu a criminalidade de forma estrutural. Pelo contrário, países que mergulharam nessa lógica, como El Salvador, colheram violações massivas de direitos humanos e uma paz frágil sustentada pelo medo, não pela justiça. O Brasil, com sua polícia que já mata muito e investiga pouco, não precisa de mais estímulo ao extermínio travestido de política de segurança.
Ao mesmo tempo, o candidato abraça o mantra neoliberal: menos Estado, menos regulação, livre mercado como panaceia. Essa visão, que Denis Ribeiro já criticou inúmeras vezes aqui no Contraluz, ignora que o mercado desregulado gerou a crise financeira de 2008, ampliou a desigualdade e concentrou renda nas mãos de pouquíssimos. O Brasil, em particular, sofreu com o receituário do “Estado mínimo” que sucateou serviços públicos sem que o setor privado suprisse as lacunas, principalmente nas periferias. Fazer coro a essa cartilha, como faz o partido Missão, é insistir num projeto que já fracassou em diversos lugares do mundo, inclusive nos Estados Unidos de Donald Trump, cujo governo foi um festival de desregulação e truculência que Denis sempre considerou desastroso.
Não há novidade alguma nessa candidatura de Renan Santos. O que há é uma roupagem um pouco mais organizada do que o MBL já fazia nas ruas e nas redes: o mesmo desprezo pela complexidade, a mesma pressa em apontar inimigos internos, o mesmo desdém pelo Estado quando ele poderia proteger os mais vulneráveis. O partido Missão pode até ostentar um nome pomposo, mas seus porta-vozes não deixarão de ser, no fundo, os moleques do MBL com um CNPJ novo e a mesma incapacidade de apresentar um projeto de país que vá além do confronto e das frases de efeito.
O eleitor brasileiro merece mais. Merece candidaturas que troquem o show de horrores verbais por planos realistas, que digam de onde virá o dinheiro, que tratem o pobre como sujeito de direitos e não como estorvo. Enquanto o debate público for dominado por quem promete matar, destruir e excluir, a política continuará girando em falso, e as favelas, com toda a sua gente, seguirão esperando por respostas que nunca chegam.
Fontes consultadas
- CNN Brasil — “Vamos matar quem roubar”, diz Renan Santos ao lançar candidatura — 01/2026 (sábado, 1º) — link
- Jornal de Brasília (via Folhapress) — Renan Santos mira ataques a Flávio em evento do Missão e defende ‘matar quem roubar’ — link
- Gazeta do Povo — Renan Santos propõe “matar quem roubar” em evento do Missão em clima de “balada” — link
- Brasil 247 — Candidato fora da lei: Renan Santos lança candidatura com promessa inconstitucional de “matar quem roubar” — link
- Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB) — Entre o Combate ao Crime e a Suspensão de Direitos: A Política de Segurança de Nayib Bukele em El Salvador — 30/07/2026 — link