sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
Contraluz

Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Milei no Brasil: quando a diplomacia vira palanque

No último fim de semana, Javier Milei pisou em solo brasileiro sem convite oficial do governo. Na diplomacia entre nações soberanas, isso simplesmente não se faz. Veio para a convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência, subiu ao palanque e disparou ofensas contra Lula, chamando-o de “ex-presidiário”, e contra o STF e Alexandre de Moraes. Tudo isso em pleno período eleitoral, quando decisões do próprio STF proíbem que réus condenados participem de manifestações político-eleitorais.

Um presidente estrangeiro não é militante de partido. Não pode tratar o maior parceiro comercial de seu país como palanque de campanha adversária. Milei não veio ao Brasil dialogar com o governo brasileiro, não veio discutir comércio, energia, integração regional. Veio confabular com adversários políticos do presidente legitimamente eleito. Qualquer manual de diplomacia classificaria isso como interferência grosseira em assuntos internos. O Itamaraty classificou o episódio como “sem precedentes” e “lamentável”. Com razão.

O peso da história: Brasil e Argentina não são adversários

Brasil e Argentina são os dois gigantes da América do Sul, responsáveis por mais da metade do PIB do Mercosul. A relação entre os dois países é estrutural.

Historicamente, a trajetória oscilou entre rivalidade e cooperação. No século XIX, a Guerra da Cisplatina opôs o Império do Brasil às Províncias Unidas do Rio da Prata. Durante as ditaduras militares dos anos 1970, houve competição nuclear velada, com ambos os países desenvolvendo programas atômicos paralelos. A redemocratização mudou tudo.

Em 1985, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín assinaram a Declaração de Iguaçu, um marco que enterrou a desconfiança nuclear e plantou a semente do que viria a ser o Mercosul. Em 1991, o Tratado de Assunção formalizou o bloco com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. De lá para cá, o comércio bilateral explodiu. Em 2008, já eram US$ 30 bilhões em intercâmbio. Em 2023, a Argentina foi o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de China e Estados Unidos. O Brasil, por sua vez, é o principal fornecedor de produtos industrializados para os argentinos.

Mercosul: muito mais que tarifa zero

O Mercosul é um projeto estratégico de autonomia regional. Com Donald Trump e JD Vance sinalizando tarifas protecionistas, abandono de acordos multilaterais e uma política externa errática, a América do Sul precisa de coesão, não de brigas de palanque.

Sozinhos, somos economias vulneráveis à volatilidade global. Juntos, Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, somos um mercado de quase 300 milhões de pessoas, um PIB combinado de aproximadamente US$ 5 trilhões, e um dos maiores produtores de alimentos, energia e minerais do planeta. O Mercosul tem problemas de coordenação, assimetrias e um protecionismo mútuo que precisa ser superado, mas é a plataforma mais concreta que temos para negociar em bloco com a União Europeia, China e Estados Unidos.

O acordo Mercosul-União Europeia, que levou mais de 20 anos para ser concluído e ainda aguarda ratificação, é um exemplo claro: sem o bloco, cada país negociaria sozinho e seria engolido.

A miopia de Milei

Milei deveria estar em Brasília negociando o aprofundamento da integração, discutindo o gás de Vaca Muerta como alternativa energética para o Brasil, construindo pontes para uma moeda comum de referência que reduza a dependência do dólar no comércio regional. Em vez disso, escolheu fazer campanha para um aliado ideológico, atropelando qualquer noção de respeito diplomático.

O presidente argentino pode não gostar de Lula, e a recíproca é verdadeira. Mas relações entre Estados não se pautam por afinidades pessoais. Getúlio Vargas e Juan Perón eram de campos políticos distintos e mantiveram relações pragmáticas. Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem também. Lula e Néstor Kirchner tinham afinidade ideológica, mas foi o comércio e a integração, não a amizade, que sustentaram o melhor momento da relação bilateral.

O Brasil tentou a via da paciência diplomática até aqui. Convocou o embaixador argentino, manifestou desagravo oficial e evitou escalar. Mas tem o direito e o dever de responder à altura. Sem romper relações diplomáticas ou comerciais, porque os povos argentino e brasileiro não merecem pagar pela irresponsabilidade de um mandatário. Mas o recado precisa ser dado: o Brasil não é quintal de ninguém, e soberania nacional não é enfeite.

Publicidade