Lula lidera, mas o Brasil segue refém da polarização e dos juros altos
A pesquisa Quaest que coloca Lula com 45% contra 37% de Flávio Bolsonaro em 2026 é o retrato de uma armadilha. O dado em si não traz surpresa; a angústia está no que ele escancara: a polarização em torno de Lula e dos juros se consolidou como o motor que trava qualquer debate substantivo no país. Mais uma vez, o eleitor é empurrado a escolher entre o ruim e o menos pior, e a persistência desse beco sem saída revela um sistema que não gera, nem parece querer gerar, alternativas reais.
O voto útil como fardo
Votarei em Lula. Mas sem a ilusão de que se trata de um estadista preocupado com o bem-estar coletivo. A manutenção da taxa básica de juros em patamares que beneficiam o rentismo é o exemplo mais gritante: enquanto o trabalhador paga juros de agiota no rotativo do cartão, o Banco Central mantém a Selic nas alturas para agradar o mercado. Some-se o arcabouço fiscal que limita investimentos, a independência do BC que blinda a política monetária, as desonerações bilionárias a grandes grupos e a ausência de uma reforma tributária que taxe lucros e dividendos. Tudo isso sob um governo que se autodenomina de esquerda. Não há heroísmo aí.
A história de Lula é de alianças com o centrão e com setores do capital que sempre priorizaram o lucro acima das pessoas. Mas a polarização política atual reduz a escolha a ele ou ao representante de um projeto que considero muito pior. O problema não é o candidato em si, é a falta de opções reais, que força o eleitor a engolir sapos e justificar o injustificável só para evitar o abismo do outro lado.
O outro lado e o custo da paralisia
Não consigo, em sã consciência, votar em Flávio Bolsonaro. Herdeiro de um ex-presidente que ofendeu mulheres, homossexuais e negros, que riu de pessoas sofrendo e governou para uma bolha, ignorando 213 milhões de brasileiros. Suas propostas de segurança e educação são um retrocesso autoritário e excludente. Não é ataque pessoal; é rejeição a um projeto político que já mostrou a que veio: desmantelar políticas sociais, perseguir minorias e corroer instituições.
A polarização não é só números de pesquisa; é a materialização de um país que se recusa a olhar para si com honestidade. Enquanto a esquerda se apega a Lula como salvador e a direita aos Bolsonaro como redentores, o cidadão comum fica no meio, sem chance de um debate que transcenda ódios recíprocos.
O que virá em 2030?
O governo Lula tem a responsabilidade de pavimentar caminhos para alternativas viáveis. Se continuar governando para o mercado e mantendo a polarização como pano de fundo, estará cavando a própria cova e a de milhões que precisam de esperança real, não de um voto no menos pior. A dança das cadeiras não engana mais: o PT critica a política econômica de Bolsonaro, mas mantém o mesmo receituário. A direita critica a corrupção do PT, mas aplaude os mesmos esquemas de poder.
A polarização vende jornal, dá ibope e alimenta redes sociais, mas não alimenta ninguém. Não resolve educação, saúde, segurança. Apenas nos divide mais, empurra para trincheiras onde o inimigo é sempre o outro, e nunca o sistema que nos oprime a todos. Votarei em Lula como barreira contra o pior, mas de olhos abertos: meu voto não é aval, é grito de desespero. A verdadeira alternativa não está nas urnas de 2026; está na construção de um novo pacto social que rompa essa polarização que nos consome. Até lá, escolheremos o menos pior, e isso é uma derrota coletiva.