sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Lula e o caminho para um Brasil auto suficiente

Lula e o caminho para um Brasil auto suficiente
Foto: Leeloo The First / Pexels

A ideia de um Brasil auto suficiente nunca foi tão central quanto agora, depois que o presidente Lula afirmou não ser “louco” de brigar com Estados Unidos e China porque não temos “os aviões, tanques, bombas que eles têm”. A frase, dita em tom de realismo, merece ser debatida por um ângulo que escapa tanto ao ufanismo vazio quanto ao conformismo paralisante. O que está em jogo não é uma disputa armada, e sim a capacidade do país de se projetar economicamente e garantir soberania em um mundo que se reorganiza com dureza.

É compreensível que um chefe de Estado reconheça a assimetria militar. Gastar energia imaginando um confronto com potências nucleares seria infantil. Mas reduzir a conversa a tanques e bombas empobrece a discussão. O verdadeiro desafio brasileiro nunca foi vencer uma guerra fria versão século XXI com mísseis, e sim construir as bases de uma economia robusta, diversificada e menos dependente dos humores alheios. Ao reagir com a metáfora bélica, Lula acabou por reforçar uma narrativa que aceita passivamente o lugar subalterno, como se as únicas opções fossem ataque militar ou alinhamento acrítico.

A armadilha do realismo desprovido de ambição

A leitura do presidente contém uma dose de verdade factual: sim, o poderio das forças armadas americanas e chinesas é esmagador. Nenhum país com juízo buscaria hostilizá-las. Contudo, a declaração aparece num momento em que o Brasil precisaria exalar confiança estratégica, não resignação. Donald Trump comanda os Estados Unidos com uma política externa errática, protecionista e que pune aliados e rivais com a mesma displicência, tornando o velho parceiro do Norte um elemento imprevisível. Já a China mantém um modelo de parceria que, se de um lado abre mercados, de outro drena competitividade industrial e impõe uma relação de dependência tecnológica. Nesse tabuleiro, contentar-se em não brigar é muito pouco.

O que está na raiz da frase de Lula é uma confusão entre beligerância e protagonismo. Protagonismo não exige porta-aviões, mas sim uma política industrial moderna, investimento maciço em ciência, inovação e infraestrutura, e a coragem de ocupar espaços onde hoje somos apenas fornecedores de commodities. Quando o governo se coloca na posição de quem “não tem como brigar”, corre o risco de naturalizar a condição periférica, em vez de combatê-la com as armas que de fato importam: educação de qualidade, integração regional inteligente, soberania alimentar, energética e digital.

Não se trata de briga, mas de deixar de ser refém

Não sei se o caminho é o da briga, palavra que o próprio presidente rechaçou. Mas parece claro que o caminho tampouco é o da submissão resignada. Um Brasil auto suficiente não é um país que fecha suas fronteiras ou arma trincheiras; é uma nação que domina as tecnologias críticas, que processa suas riquezas minerais e agroindustriais antes de exportá-las, que gera empregos de alta produtividade e que fala de igual para igual em negociações comerciais porque não teme o corte abrupto de um insumo ou de um mercado.

Vivemos sob a ilusão de que um país com tantos recursos naturais basta ser “simpático” aos grandes para prosperar. A história recente mostra o contrário. A pressão por desmatamento embutida em demandas externas, as ameaças de sobretaxas por parte de Trump para produtos brasileiros, a competição desigual com manufaturados asiáticos. Tudo isso escancara que não ter tanques e bombas é o de menos. O problema é não ter uma estratégia de desenvolvimento que reduza a vulnerabilidade externa e faça do tamanho do nosso mercado interno e da nossa diplomacia instrumentos de poder real.

Recuperar a capacidade de sonhar com um país no centro do tabuleiro

Em seu comentário, você diz que não estamos falando de briga, mas de “entender e fazer o que precisa ser feito para colocar o Brasil novamente no topo do mundo”. Concordo inteiramente. Esse “topo” não é um ranking de poder bélico, mas uma sociedade que resolveu seus dramas sociais, que exporta conhecimento e produtos de alto valor, que arbitra conflitos com autoridade moral e que, principalmente, não pode ter seu destino sequestrado pelas crises dos outros. Para isso, o estado precisa reassumir seu papel planejador, não no molde autoritário ou ultrapassado, mas como indutor de inovação e garantidor de que os ganhos de produtividade cheguem à maioria da população.

Lula tem diante de si a oportunidade de liderar, no crepúsculo de sua trajetória, um ciclo de transformação estrutural que vá além do assistencialismo, importante como é. Ao rebater críticas com o argumento da supremacia militar alheia, ele desperdiça a chance de enunciar a visão de um Brasil que cresce por mérito próprio, que se fortalece sem precisar hostilizar e que, mesmo sem porta-aviões, impõe respeito pela consistência de sua economia e pela ousadia de seu projeto nacional.

Não se trata de ignorar a verdade óbvia dita pelo presidente, mas de complementá-la com a outra metade: sim, não vamos nos envolver em corridas armamentistas insensatas, e por isso mesmo temos a obrigação de nos armar com aquilo que define a soberania no século XXI. Tecnologia, capacidade produtiva, sistemas financeiros sólidos, coesão social e uma diplomacia que não seja mero reflexo de subalternidade. Um Brasil auto suficiente não desafia tanques; simplesmente torna os tanques irrelevantes para sua prosperidade.

Fontes consultadas

  • Metrópoles — Lula diz que não é “louco” de brigar com EUA e China — 29/07/2026 — link
  • Terra — Lula: Vocês acham que quero brigar com China e EUA? Eu não sou louco — 29/07/2026 — link
  • Poder360 — Lula diz que não é “louco” de brigar com China e EUA — 29/07/2026 — link
  • Money Times — Lula: Vocês acham que quero brigar com China e EUA? Eu não sou louco — 29/07/2026 — link
  • Trading Economics — Trump adia tarifas Brasil, poupa exportações chave — 30/07/2025 — link
  • Bloomberg — Brasil supera tarifas de Trump e tem recorde de exportações em 2025 — 06/01/2026 — link
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