terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Esportes

Investimento na base de futebol é prioridade que falta

Investimento na base de futebol é prioridade que falta
Foto: Franco Monsalvo / Pexels

O investimento na base é tratado pelo futebol brasileiro como uma sobra de caixa, não como prioridade estratégica. O levantamento do setor divulgado em 2026 não deixa margem para outra leitura: os clubes destinaram cerca de 92% dos investimentos ao elenco profissional e apenas 3% às categorias de base, segundo a Máquina do Esporte. Em qualquer empresa, isso seria como gastar quase tudo em marketing para vender hoje e deixar de investir no laboratório de pesquisa que vai garantir o produto de amanhã. No futebol, o laboratório é a base, e os números mostram que ela é o ativo mais valioso e menos financiado do país.

Não é opinião, é balanço. As transferências de atletas somaram R$ 3,9 bilhões em 2025, alta de 63% sobre 2024, de acordo com o mesmo levantamento. E a venda de jogadores formados na base representa entre 25% e 40% da receita anual dos grandes clubes em 2026. Ou seja: a formação de atletas não é um projeto filantrópico, é o principal motor de receita de muita gente que hoje acha que pode ignorá-la.

Por que um clube insiste em financiar apenas o curto prazo?

A resposta é constrangedoramente simples: o presidente de clube pensa no resultado do próximo campeonato, não no ativo que vai render daqui a quatro anos. Ele precisa vencer já para se manter no cargo, agradar a torcida e fechar patrocínio. O jogador revelado na base é um investimento de maturação longa, e dirigente em fim de mandato não tem paciência para colheita que só acontece depois que ele sai. É a mesma lógica irracional que eu critiquei aqui quando falei das SAFs que endividam o clube achando que capital financeiro resolve tudo. O erro é o mesmo, visto por outro ângulo: gestão profissional de verdade não é gastar muito, é alocar recurso onde o retorno é maior.

E o retorno é maior justamente na base. O caso do Palmeiras citado no levantamento é exemplar: a base do clube já gera mais de R$ 300 milhões em receita anual, segundo o Lance!. Isso significa que o caminho mais lucrativo e o caminho mais sustentável coincidem, mas exigem uma virtude rara em área de futebol: paciência estratégica. O dirigente que só olha para o próximo fim de semana está tomando a decisão mais cara possível, porque joga fora a possibilidade de formar um ativo de R$ 300 milhões por ano para gastar em reforço que pode não dar certo em seis meses.

A formação não é gasto, é o negócio mais rentável do futebol

Existe uma falsa dicotomia entre competitividade imediata e desenvolvimento de base. Alguns clubes argumentam que precisam priorizar o profissional para não serem rebaixados, mas o dado de 2025 mostra que a venda de formados na base já paga a folha de muitos times. Não é uma escolha entre ganhar hoje e ganhar amanhã, é a escolha entre ganhar todo ano e ganhar uma vez. O Flamengo, o Palmeiras e outros que investem em formação entendem que a base é uma fábrica de receita que também alimenta o time principal com jogadores que têm identificação com o clube e custo muito menor do que a contratação no mercado internacional.

Ainda assim, o percentual médio segue em 3%. É uma distorção que lembra o comportamento de economias que vivem de commodity e não diversificam, ou de empresas que param de investir em pesquisa e desenvolvimento no primeiro trimestre ruim. Eu passei anos acreditando que o mercado resolvia esse tipo de desequilíbrio sozinho, que a concorrência puniria quem não investisse no futuro. O que a realidade mostra é que o custo de carregar um mau dirigente é pago pela torcida e pelo clube, enquanto o mercado premia quem tem resultado imediato, mesmo que depois a conta chegue.

Para 2026, a CBF ampliou o calendário de competições de base, com a volta das Supercopas Sub-20 e Sub-17 e a criação da Copa do Brasil Sub-15. Isso é um bom sinal, mas não resolve a equação sozinho. Calendário não paga estrutura, não forma treinador, não constrói alojamento. É preciso que os clubes, e aqui falo especialmente das associações que ainda resistem à profissionalização da gestão, enxerguem a base como ativo central e não como despesa marginal. O discurso de jornalista esportivo costuma tratar revelação como sorte, como se Endrick e Estêvão tivessem caído do céu. Não caíram. Foram o resultado de anos de investimento em captação, estrutura e metodologia.

A conclusão é a mesma que sustento quando falo de política econômica e industrialização do país: não se constrói um projeto sólido apenas apostando no resultado imediato. Formar um jogador na base é o equivalente a investir em educação e ciência: dá trabalho, demora, exige paciência e não aparece no noticiário do mês. Mas é a única via que sustenta tanto o clube pequeno que sobrevive vendendo uma joia por ano quanto o grande que fatura R$ 300 milhões com a própria formação. Enquanto os presidentes de clube tratarem a base como uma obrigação acessória, o futebol brasileiro vai continuar exportando talento bruto e importando resultado por um preço cada vez mais alto.

Chame pelo nome certo: falta de estratégia de longo prazo, e o preço disso aparece no balanço. Mas o remédio também está no balanço, na linha que mostra quanto a base já rende. Quem tiver coragem de ler os números até o fim, e paciência para esperar a colheita, vai descobrir que o futuro do futebol brasileiro sempre esteve na sua própria formação.

Fontes

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