terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Educação

Ideb 2025: enquanto o Brasil comemora migalhas, a China já forma crianças para o mundo da IA

O MEC anunciou na quarta-feira o Ideb 2025 com estardalhaço: “maior índice desde 2005”. Vamos aos números de verdade. O ensino médio público brasileiro foi de 4,1 para 4,3. Numa escala de 0 a 10. A meta de 5,2 que deveria ter sido atingida em 2021 continua lá, intocada, sem novo prazo e sem nenhum plano para alcançá-la.

Só os anos iniciais do fundamental (1º ao 5º ano) bateram a meta. O resto do país patina. E patina pior do que os números oficiais mostram, porque tem uma mutreta contábil por trás de várias “melhoras”.

O G1 publicou na quinta-feira uma análise detalhada mostrando o truque que redes estaduais usaram pra inflar artificialmente o Ideb. O mecanismo é simples: você afrouxa as regras de aprovação, passa todo mundo, e o índice sobe porque um dos componentes do Ideb é justamente a taxa de aprovação. Não precisa melhorar a nota do Saeb. Basta aprovar mais aluno, e o número sobe sozinho.

O Rio Grande do Norte é o caso mais gritante. A taxa de aprovação no 1º ano do ensino médio saltou de 67,9% para 87,9% em dois anos, enquanto as notas do Saeb ficaram paradas no mesmo lugar. O Rio de Janeiro conseguiu a façanha de ter notas piores no Saeb e mesmo assim subir no ranking nacional. Passar todo mundo sem aprender nada virou política pública com direito a coletiva de imprensa.

Tem exceções reais, sim. O Paraná lidera o ranking com avanço consistente em todas as etapas. O Piauí virou referência em matemática, com 20 pontos a mais no Saeb, resultado de uma política de formação de professores e material didático estruturado que começou anos atrás e foi mantida por governos diferentes. O Rio Grande do Sul também mostrou avanço legítimo. Mas são ilhas. A regra do jogo é mediocridade maquiada de progresso.

Enquanto a gente discute se um 4,3 é motivo de festa ou não, a China tornou inteligência artificial disciplina obrigatória a partir dos 6 anos de idade. Não é optativa. Não é extracurricular. Está na grade, ao lado de matemática e chinês.

Em maio de 2025, o Ministério da Educação chinês publicou um guia de 84 páginas detalhando exatamente como integrar IA em todos os níveis da educação básica. No primário, crianças aprendem conceitos fundamentais de IA e usos básicos. No fundamental 2, aplicam ferramentas de IA em projetos interdisciplinares. No ensino médio, constroem algoritmos simples. O documento especifica carga horária mínima, competências por faixa etária, cenários de uso em sala de aula e até as situações em que o aluno pode ou não usar IA generativa.

Por exemplo: o aluno pode usar IA para gerar um relatório diagnóstico do próprio desempenho, mas não pode deixar a IA fazer o trabalho escolar por ele. A preocupação com dependência excessiva está documentada no próprio guia oficial. Eles pensaram nisso.

E a cadeia não para na educação básica. A partir do ano letivo 2025-26, universidades chinesas passaram a oferecer graduação específica em “Educação em Inteligência Artificial”, formando professores especializados em ensinar IA. O plano quinquenal 2026-2030 determina que IA seja integrada a “cada elemento, etapa e cenário” da educação. Pequim já implementou em todas as escolas públicas da capital. Em Wenzhou, alunos do fundamental usam IA generativa para criar avatares digitais e simulações históricas. Não é aula de informática. É produção com tecnologia.

E é um erro olhar pra isso e pensar “ah, mas é a China, eles são outra realidade”. Os Emirados Árabes Unidos tornaram obrigatório um currículo nacional de IA do jardim de infância ao ensino médio, cobrindo quase 1 milhão de alunos. A Índia, com renda per capita menor que a brasileira, anunciou que IA será obrigatória a partir do 3º ano em 2026-27 e montou um plano para formar 10 milhões de professores. Singapura tem estratégia nacional de IA na educação até 2030. Finlândia e Estônia tratam fluência em IA como competência cívica básica, não como especialização técnica para alguns.

O abismo entre esses países e o Brasil não está no PIB per capita. A Índia é mais pobre que a gente. A diferença está numa compreensão básica: educação é infraestrutura econômica, não despesa social. E isso nenhum governo brasileiro dos últimos 30 anos entendeu de verdade.

O Ideb foi criado em 2007. Faz quase 20 anos. Ele mede português e matemática tradicionais, cruzados com taxa de aprovação. Em 2007, o iPhone tinha acabado de ser lançado. O YouTube tinha 2 anos de existência. Redes neurais profundas ainda eram artigo acadêmico restrito a meia dúzia de laboratórios. O mundo que o Ideb foi desenhado para medir não existe mais.

O Fórum Econômico Mundial projeta 92 milhões de empregos eliminados pela automação até 2030. Em paralelo, 170 milhões de novos empregos serão criados, mas exigindo habilidades que as escolas brasileiras simplesmente não ensinam. Um relatório da Forbes Brasil de julho de 2025 mostrou que 41% dos empregadores globais já planejam reduzir equipes por causa da adoção de IA. No Brasil, 1,2 milhão de postos de trabalho sumiram por automação só em 2026. E a nossa resposta educacional é comemorar um 4,3 que não bate nem a meta de 2021.

O Ideb não mede pensamento computacional. Não mede letramento digital. Não mede capacidade de aprender a aprender. Não mede colaboração, criatividade, ética tecnológica. Mede o que era importante no século XX com ferramentas conceituais do século XX.

A Coreia do Sul tentou em 2025 impor livros didáticos de IA nas escolas e teve que recuar. Não porque a ideia fosse ruim, mas porque os professores não estavam preparados. O governo coreano entendeu a lição na prática: não adianta enfiar tecnologia na escola sem antes formar quem está na ponta da sala de aula. O Brasil nem chegou nessa etapa da conversa. A gente ainda está discutindo se o Ideb subiu ou não.

Tem um problema estrutural mais grave nessa história. O Ideb sobe em ano eleitoral com aprovação artificial, manchete otimista no site do MEC, e dois anos depois a realidade cobra a conta. A sociedade civil comemora o número errado. A imprensa repercute o release. E a gente perde mais um ciclo de quatro anos discutindo o índice em vez de discutir a educação que ele deveria medir.

Ainda tratamos tecnologia na escola como sinônimo de “aula de informática”. Montar planilha no Excel. Fazer slide no PowerPoint. Isso não é letramento digital. Letramento digital é entender o que um algoritmo de recomendação faz com sua atenção. É saber que uma IA generativa pode alucinar fontes que não existem. É ter critério para distinguir informação de desinformação num feed de rede social. Nada disso aparece no Ideb. Nada disso está no currículo da escola pública brasileira.

O Brasil comemorou um 4,3 que não bate a meta de 2021. Boa parte desse número é maquiagem contábil de estado. E a gente segue achando que está tudo bem porque “melhorou”.

Os países que vão prosperar na economia da IA não são os que têm mais petróleo, mais população ou mais recursos naturais. São os que formam gente que aprende mais rápido do que as máquinas evoluem. O relógio está correndo. E a gente aplaudindo um 4,3.

Fontes consultadas

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