Ideb 2023 expõe maquiagem e atraso enquanto mundo adota IA obrigatória
Os resultados do Ideb 2023, divulgados pelo MEC em 5 de abril de 2025, pintam um quadro que mistura modesto avanço com graves distorções. A manchete oficial fala em "maior índice desde 2005", mas quem vai além do título encontra números que não fecham. O ensino médio público brasileiro subiu de 4,1 para 4,3 em uma escala que vai até 10, enquanto a meta de 5,2, que já deveria ter sido atingida em 2021, continua sem qualquer prazo para ser alcançada. Apenas os anos iniciais do fundamental bateram a meta. O restante patina ou camufla a realidade com artifícios contábeis.
A maquiagem aparece em estados que inflaram artificialmente suas taxas de aprovação. No Rio Grande do Norte, a aprovação no 1º ano do ensino médio saltou de 67,9% para 87,9% em apenas dois anos, com as notas do Saeb rigorosamente estagnadas. O Rio de Janeiro conseguiu a proeza de apresentar desempenho pior no Saeb e ainda assim subir no ranking do Ideb 2023, graças ao relaxamento dos critérios de reprovação. Passar todo mundo sem aprender se tornou política pública, uma violência institucional contra o aluno mais pobre, que recebe um diploma sem as competências correspondentes. Há, sim, exceções genuínas: o Paraná lidera nacionalmente, o Piauí virou destaque em matemática com um ganho de 20 pontos no Saeb e o Rio Grande do Sul mostrou avanço real. Mas são ilhas num oceano de mediocridade que o próprio índice oficial já não consegue esconder.
Por que o Ideb 2023 não conta a história que o século XXI exige
Enquanto o Brasil se agarra a um indicador que mede o passado, outros países já transformaram a inteligência artificial no centro de suas políticas educacionais. A China tornou IA disciplina obrigatória a partir dos seis anos de idade, não como optativa, mas integrada à grade ao lado de matemática. Em Pequim, agentes de IA analisam em minutos o perfil de cada estudante e geram sequências de exercícios personalizadas; em Wenzhou, crianças usam IA generativa para criar avatares digitais, produzindo tecnologia em vez de apenas consumi-la. Os Emirados Árabes instituíram um currículo nacional obrigatório de IA do jardim ao ensino médio, alcançando quase um milhão de alunos. A Índia tornará IA obrigatória a partir do 3º ano em 2026-27, com a meta de formar 10 milhões de professores. Singapura tem uma estratégia nacional até 2030, e Finlândia e Estônia tratam fluência em IA como habilidade cívica, não como especialização técnica.
O Ideb 2023, gestado em 2007, mede português e matemática tradicionais cruzados com taxas de aprovação. Não captura pensamento computacional, letramento digital, colaboração, criatividade, ética tecnológica ou a capacidade de aprender a aprender. Ele reflete o que era urgente no século XX, enquanto o Fórum Econômico Mundial estima que a automação eliminará 85 milhões de empregos até 2030 e criará 97 milhões de novas posições, exigindo habilidades que nossas escolas não ensinam. A régua está quebrada, e a transição entre a crítica estatística e a agenda de inteligência artificial não é um salto temático: é a constatação de que a fixação em metas vencidas nos cega para o que realmente importa.
O que precisamos fazer é igualmente claro. Primeiro, parar de mentir com estatística. A aprovação automática para inflar o Ideb é um golpe contra a credibilidade do sistema e perpetua a desigualdade. Segundo, reformular o que medimos. O Saeb precisa incorporar competências digitais, pensamento crítico sobre tecnologia e resolução de problemas reais, sob pena de continuarmos formando para um mundo que já não existe. Terceiro, investir na formação de professores para o ambiente digital. A Coreia do Sul tentou impor livros de IA em 2025 e recuou porque os docentes não estavam prontos; o Brasil gasta mal e não forma, repetindo o erro. Quarto, tirar a educação do ciclo eleitoral. O Ideb sobe em anos de eleição com aprovação artificial, manchete otimista, e depois a realidade cobra a conta. Quinto, parar de tratar tecnologia na escola como sinônimo de aula de informática. Não se trata de Excel, mas de formar cidadãos que compreendam o que um algoritmo faz com sua atenção, seus dados e seu futuro.
O recado dos países que lideram a economia da inteligência artificial é nítido: o capital do século XXI não é o petróleo nem o tamanho da população, mas a capacidade de aprender mais rápido que a evolução das máquinas. O Brasil celebra um 4,3 que não atinge a meta de 2021 e que, em parte relevante, foi inflado artificialmente. Enquanto isso, o resto do mundo acelera. A escolha é dolorosamente simples: ou reformamos a régua com que nos medimos e o que ensinamos, ou seguiremos colecionando diplomas vazios enquanto o futuro nos atropela.
Fontes consultadas
- Todos Pela Educação — Ideb e Saeb: veja os destaques dos resultados de 2023 — 14/08/2024 — link
- Secretaria da Educação do Paraná — Liderança no Ideb e novos investimentos marcam o segundo trimestre da Educação — 18/09/2024 — link
- Conexão Política — Taxas de ‘aprovação’ disparam em estados que permitem passar de ano com até seis reprovações, mas alunos seguem sem aprender o básico — link
- World Economic Forum — The Future of Jobs Report 2020 — 2020 — link
- AI Weekly — China Mandates AI Curriculum From Age Six in All School Grades — 2025 — link