IA soberana: por que o Brasil acertou em investir R$ 23 bilhões
O Brasil aposta bilhões em inteligência artificial própria, e já sabe que vai ser criticado
Enquanto o mundo debate quem vai ditar o ritmo da inteligência artificial, o Brasil resolveu jogar pesado: 23 bilhões de reais até 2028 num plano de IA soberana. Dinheiro público, de verdade, para construir capacidade tecnológica própria. Defendo a ideia, mas sei que ela vai apanhar.
Vai apanhar do coro de sempre. Da turma que, toda vez que o Estado decide investir em algo estratégico, repete o refrão: “governo não sabe fazer nada”, “isso é gasto”, “melhor deixar com o mercado”. Disco riscado e errado pela raiz.
Nenhuma potência tecnológica nasceu sem Estado forte
Digo isso com conhecimento de causa: não existe, na história moderna, uma única potência tecnológica que tenha se erguido sem um Estado agindo como pivô. A internet saiu de investimento militar americano. O GPS, idem. O Vale do Silício foi irrigado por décadas de dinheiro público em pesquisa. A China avançou com o Estado no volante. A Coreia do Sul construiu Samsung e Hyundai com políticas industriais agressivas e financiamento estatal. A Europa montou a Airbus juntando esforços públicos.
A história de que tudo foi obra de gênios solitários numa garagem é um conto de fadas, útil para justificar por que o lucro fica privado depois que o risco foi bancado por todos nós. Quando o Brasil decide investir em IA em vez de comprar a tecnologia pronta de fora, repete o movimento que qualquer país sério fez. Não é aventura. É o mínimo para não passar o século XXI como cliente pagante, entregando dado e recebendo inteligência de aluguel.
O que está em jogo é dependência ou protagonismo
A alternativa a ter inteligência artificial própria não é “não ter IA”. É depender inteiramente da de fora. Significa que decisões sobre como a tecnologia vai reorganizar sua vida, seu trabalho, seu banco, seu hospital serão tomadas por três ou quatro empresas de outro país, sob a lei de outro país, servindo ao interesse de outro país. Isso tem nome: dependência. E dependência tecnológica, no mundo que vem aí, é tão grave quanto depender do vizinho para comer.
Com uma IA soberana, você processa dados aqui, sob a nossa lei. Gera emprego qualificado aqui. Cria modelos que entendem o português do Brasil, a nossa realidade, os nossos problemas, em vez de um sotaque importado que trata o país como nota de rodapé. Veja a agricultura: algoritmos que recomendam plantio e colheita treinados com dados do hemisfério norte erram no Cerrado. Na saúde, diagnósticos baseados em populações europeias não se aplicam igualmente à diversidade genética brasileira.
Há ainda o risco de segurança nacional. Dados estratégicos sobre infraestrutura, energia e defesa, se processados por IA estrangeira, podem vazar ou ser usados contra os nossos interesses. A Índia já criou modelos próprios de linguagem para evitar essa exposição. O Brasil não pode ficar para trás.
Investir com Estado forte, fiscalizar com sociedade atenta
Defender o investimento não é assinar cheque em branco. Vinte e três bilhões é muito dinheiro, e dinheiro público exige cobrança feroz: transparência, metas claras, resultados medidos. Nada de virar cabide de empreguismo ou ralo de projeto que não sai do papel. Investir com Estado forte e fiscalizar com sociedade atenta não são opostos, são a mesma responsabilidade.
Mas entre a preguiça de “deixa com o mercado” e a coragem de construir algo nosso, fico com a segunda. O Brasil já perdeu bonde tecnológico demais por acreditar que o melhor era esperar sentado. Nos anos 80 e 90, abrimos o mercado de informática sem fortalecer a indústria local; hoje somos reféns de licenças e patentes estrangeiras. No setor de semicondutores, poderíamos ter desenvolvido capacidade própria, preferimos importar. Agora, com inteligência artificial, o custo de ficar de fora é muito maior.
A iniciativa privada tem seu papel. Startups e empresas brasileiras de IA precisam de incentivos e parcerias. Mas sem o Estado catalisador, financiando pesquisa básica, montando infraestrutura de supercomputação, organizando bases de dados públicas e formando profissionais, o mercado sozinho não dá conta. Isso não é estatismo cego. É pragmatismo histórico.
Dessa vez, que a gente pelo menos tente entrar no jogo. Depender dá para fazer de olhos fechados. Construir é que exige acordar. A IA soberana é o caminho para o Brasil não ser só um usuário passivo, mas protagonista no século da inteligência artificial.
Fontes consultadas
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) — Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) — 2025 — link
- CREA-RJ — Brasil lança versão final do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial com investimento de R$ 23 bilhões até 2028 — 2025 — link
- Fenati — Plano Nacional de IA prevê investimentos de R$ 23 bi até 28 — 2025 — link
- IndiaAI / arXiv (Assessing Socio-Cultural Alignment and Technical Safety of Sovereign LLMs) — BharatGen: World’s first government-funded multimodal LLM initiative launched in India — 2024 — link
- Paulo Gala – Economia & Finanças — Os imaginadores da guerra: DARPA e o investimento público no desenvolvimento dos EUA — link