terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
Contraluz

Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Esportes

Fair play financeiro: futebol precisa de regulação

Fair play financeiro: futebol precisa de regulação
Foto: Franco Monsalvo / Pexels

Quando o assunto é fair play financeiro no futebol brasileiro, os números contam uma história que muita gente não quer encarar: os clubes da Série A estão afogados em R$ 17,3 bilhões de dívidas, segundo o Lance!. Entre eles, Atlético-MG, Botafogo, Cruzeiro e Ceará, times que viraram Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e ainda assim viram o endividamento crescer em 2025. O Ceará, inclusive, lidera o aumento percentual no país.

Essa notícia me atinge de um jeito particular. Há alguns anos, eu era daqueles que defendiam que o mercado resolvia tudo, que a iniciativa privada era a salvação da lavoura. Eu acreditava que transformar clube em SAF era como trocar o sistema operacional: bastava um dono com capital e gestão profissional que a bagunça financeira estaria resolvida. Era um pensamento confortável, alinhado com a cartilha liberal que eu seguia sem muita crítica. A vida, o trabalho com tecnologia e a observação dos fatos me mostraram que eu estava errado.

Não sou contra SAF, deixa claro. Sou a favor de clube bem gerido e de dono sério. Mas a notícia mostra exatamente o que acontece quando se acredita que o capital privado, sozinho, promove equilíbrio. O endividamento cresceu mesmo nos clubes que viraram empresa. Isso não é detalhe, é evidência de que o problema não é só o modelo de gestão, mas a ausência de regras claras e de fiscalização de verdade. É o mesmo erro que eu cometia quando olhava para a economia e achava que bastava diminuir o Estado. Sem regulação, o capital privado busca ganho de curto prazo, e o rombo aparece depois.

Fair play financeiro virou dívida, não solução

Talvez alguém diga que SAF é recente, que os clubes ainda estão se adaptando. Ok, mas os números mostram que em 2025, depois de tantas conversas sobre eficiência, o endividamento não caiu. Pior, em vários casos aumentou. Se a promessa central da SAF era sanear as contas, ela não se cumpriu até agora. Isso não é um ataque ao modelo, é uma constatação. O que adianta trocar o motorista do ônibus se a estrada continua esburacada?

Na minha área, que é tecnologia, ninguém acha que um sistema se mantém saudável por boa vontade. A gente cria testes automatizados, monitoramento e limites de uso. Sem isso, o sistema degrada e vira uma dívida técnica gigante. O fair play financeiro é exatamente o teste automatizado do futebol. Clubes que gastam mais do que arrecadam precisam ser parados por uma instância externa, senão o débito vira bola de neve. O mercado, deixado solto, não faz esse papel. Ele alimenta a ilusão de que o próximo investidor vai resolver tudo, até que a conta chega.

O que a ANRESF muda no fair play financeiro

A CBF apresentou um Sistema de Sustentabilidade Financeira para o futebol brasileiro, com uma agência independente chamada ANRESF. Segundo a CBF, a partir de 2026 clubes e SAFs vão precisar regularizar dívidas anteriores a 2026 até 30 de novembro. Para dívidas contraídas a partir de janeiro de 2026, as regras serão mais rígidas, conforme a Lei 15.427/2026. Ou seja, depois de anos no vale-tudo, alguém resolveu criar um árbitro para o balanço financeiro. O que o mercado prometia fazer por conta própria, agora depende de uma agência reguladora para acontecer.

Quem ainda acredita na autorregulação deveria ler essa notícia com atenção. Não estou dizendo que todo investidor é irresponsável. Mas o sistema não pode depender da boa vontade de cada um. Regulação não é inimiga do investimento privado; ela é o que separa o investimento produtivo da aventura. Um fundo que compra um clube, assume dívidas e promete saneamento precisa de alguém de fora verificando se o plano está saindo do papel. Sem isso, a promessa vira publicidade.

Eu sei que o torcedor comum não pensa em balanço financeiro quando vai ao estádio. Ele quer ver o time ganhar, quer comemorar um gol no fim de semana. Mas a verdade é que o endividamento cedo ou tarde afeta o time dentro de campo. Clube quebrado atrasa salário, perde jogador, não investe em base e depende de dinheiro de empresário. O fair play financeiro não é uma pauta de economista entediado, é uma pauta de quem ama futebol e quer ver o campeonato de pé daqui a vinte anos.

Aprendi a enxergar isso com a mesma lente que uso para política social e educação. Eu via gasto onde hoje vejo investimento. Não é estatismo cego, não é achar que governo resolve tudo. É entender que certas coisas não acontecem por livre espontânea pressão do mercado. Nenhum país se desenvolveu sem Estado catalisador, sem regra, sem instituição. O futebol brasileiro agora ensaia esse passo com a ANRESF, e não é pouco diante de um cenário de R$ 17,3 bilhões em dívidas na Série A.

Também tem uma lição pessoal aqui. Minha infância foi apertada e eu aprendi cedo o valor do orçamento. Por isso, quando alguém me diz que dívida é só um problema contábil ou que o mercado se ajusta sozinho, eu desconfio. Eu já morei no lado em que o ajuste nunca vem e a conta sobra para o mais fraco. No futebol, o mais fraco é o torcedor, que vê o clube se afundar e ainda é tratado como culpado por cobrar time competitivo. Um campeonato com fair play financeiro de verdade protege não apenas os clubes, mas a própria essência do esporte.

A criação da agência não é garantia de sucesso. Pode falhar, pode ter falhas de desenho, pode sofrer pressão. Mas aponta para uma direção mais honesta do que o conto de que o mercado se autorregula. Se a promessa do capital privado tivesse funcionado sozinha, os clubes empresariados estariam com menos dívida, não com mais. A realidade mostrou o oposto. Talvez seja hora de ouvir quem passou anos estudando e vivendo para dizer que o “deixa com o mercado” não é política, é esperança. E esperança não paga débito com banco.

Fontes

  • Lance! – Fair play financeiro: com dívida bilionária na Série A, clubes reforçam busca por equilíbrio – link
  • CBF – CBF apresenta Sistema de Sustentabilidade Financeira do futebol brasileiro – link
Publicidade