Educação pública brasileira: o fracasso foi planejado
A educação pública brasileira está na berlinda mais uma vez. O Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, divulgado pelo Todos Pela Educação, revela que investimos R$ 540 bilhões em 2023, o equivalente a 4,9% do PIB. O número parece robusto, mas quando olhamos o investimento por aluno na Educação Básica, US$ 3.668, a realidade desaba: é menos de um terço da média da OCDE, que beira os US$ 12 mil. Diante desse contraste, a narrativa que domina o debate público é tão previsível quanto cínica: o Estado não funciona, a escola pública é um fracasso, privatizar é a única saída.
Mas vamos com calma. Esse discurso ignora um pequeno detalhe histórico: o sucateamento não foi acidental. Foi construído passo a passo, com investimentos cortados, salários de professores arrochados ao longo de décadas e infraestrutura escolar deixada ao deus-dará. É o bombeiro que provoca o incêndio para depois vender o seguro. Quem sempre apontou o dedo para o ensino público como um poço de ineficiência, muitas vezes foi o mesmo que defendeu teto de gastos, redução de verbas e reformas que encolheram o papel do Estado. A lógica é perversa e circular: primeiro estrangulam a escola pública, depois dizem “viu só? Não presta, vamos privatizar”.
O cálculo do sucateamento
O modelo neoliberal aplicado à educação nunca teve como meta melhorar a qualidade. Se tivesse, olhariam para os países que realmente acertaram. A Finlândia, por exemplo, não chega perto desse discurso de “mercado resolve”. Lá, disciplinas práticas como marcenaria (puutyö) e artesanato têxtil (käsityö) são obrigatórias desde os anos 1970. Não são aulas de “laboratório de ciências”, são oficinas reais, onde crianças aprendem a usar ferramentas, a planejar um projeto, a errar e refazer. E isso está integrado ao currículo de forma tão natural quanto matemática ou história. Não precisam de “novo ensino médio” para inventar a roda: a roda já está lá, e ela funciona.
Na Alemanha, o sistema dual de formação profissional é ainda mais emblemático. São 328 profissões reconhecidas pelo governo alemão em 2025, e os jovens passam de três a quatro dias por semana na prática dentro de empresas, e um ou dois dias na escola técnica. O resultado é uma das menores taxas de desemprego juvenil da Europa. Não é à toa que outros países estão de olho nesse modelo para adaptá-lo. Enquanto isso, o Brasil insiste em um ensino médio enciclopédico, onde o aluno decora fórmulas de física para o ENEM e sai sem saber trocar uma lâmpada, fazer um orçamento ou resolver um conflito no trabalho em equipe.
A educação pública brasileira e a falácia da privatização
Defender a privatização como solução para a educação pública brasileira é ignorar deliberadamente as evidências. Nos Estados Unidos, as escolas charter, que são uma forma de privatização com recursos públicos, tiveram resultados mistos e, em muitos casos, piores do que as escolas públicas tradicionais. Mas isso não interessa aos que transformaram a educação num balcão de negócios. O que interessa é abrir mercado, criar planos de saúde educacionais, vender apostilas e plataformas digitais. O aluno vira cliente, o professor vira prestador de serviço, e o direito vira mercadoria.
Enquanto isso, a Finlândia e a Alemanha seguem com sistemas públicos fortes, com professores valorizados, salários dignos, autonomia pedagógica, formação continuada, e um currículo que não separa teoria de prática. Eles não precisam de “escolas sem partido” nem de “liberdade de escolha” baseada em voucher. Eles precisam de um Estado que invista, planeje e garanta qualidade para todos. Aliás, o novo Fundeb é um avanço, mas sozinho não vai mudar nada se a lógica do investimento continuar sendo a do mínimo necessário.
Inteligência artificial generativa e o fim da decoreba
Se antes o modelo enciclopédico já era frágil, a chegada da inteligência artificial generativa, ChatGPT, Claude, Gemini, escancarou sua obsolescência. Qual o sentido de passar horas decorando datas, fórmulas e classificações se uma IA resolve tudo em segundos? A crise não é da tecnologia, é do currículo. Se a informação está disponível na palma da mão, a função da escola não pode mais ser transmitir informação. Ela precisa ensinar o que a máquina não faz: pensamento crítico, criatividade, colaboração, capacidade de formular perguntas interessantes.
Mas, em vez de repensar radicalmente o que e como se ensina, o que vemos são propostas superficiais: “incluir educação digital” como mais uma disciplina, como se fosse possível resolver o problema adicionando horas de tela. O que precisamos é de menos apostila e mais bancada de marcenaria. Menos aula expositiva e mais projeto prático. Menos medo de errar e mais experimentação. E isso vale para todas as áreas: da elétrica à programação, da robótica ao artesanato.
A educação pública brasileira não precisa de mais consultores de PowerPoint nem de discursos de “empreendedorismo” que escondem a precarização. Precisa de coragem para olhar para o que deu certo lá fora, e não estou falando de copiar, mas de adaptar com inteligência. Precisa de um Estado que invista de forma consistente e valorize quem está na sala de aula. E precisa, acima de tudo, de uma sociedade que pare de repetir o mantra do “público é ruim” enquanto empurra o sistema para o abismo.
O fracasso da escola pública não é uma fatalidade. Foi planejado, executado e agora serve de justificativa para novos cortes e privatizações. Cabe a nós exigir um outro rumo: mais investimento, mais prática, mais autonomia para professores e, sim, muito menos decoreba. A tecnologia veio para ficar, mas ela só vai nos ajudar se a gente tiver coragem de mudar o que realmente importa.
Fontes consultadas
- Todos Pela Educação — Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025 – Capítulo 9: Financiamento — 2025 — link
- Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE) — Mito derrubado: “O Brasil já investe o suficiente em educação porque gasta um percentual do PIB similar à média dos países da OCDE” — 10/04/2025 — link
- ANDI – Comunicação e Direitos — Gasto por aluno no Brasil é menos de um terço do investimento de países ricos — 09/09/2025 — link
- Governo Alemão (Deutschland.de / Tatsachen über Deutschland) — Assim funciona a formação profissional dual na Alemanha — 27/01/2025 — link
- Poder360 — Os mitos e verdades sobre charters e vouchers, escreve Jair Ribeiro — 30/03/2020 — link