sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Política

Datafolha Lula Flávio: o Brasil rachado e os 37% que vão decidir 2026

Datafolha Lula Flávio: o Brasil rachado e os 37% que vão decidir 2026
Foto: Rcastro creative / Pexels

A pesquisa Datafolha Lula Flávio divulgada em 24 de julho não me deixou tranquilo. Não pela dianteira do presidente no primeiro turno, nem pela margem apertada no segundo. Meu incômodo vem de outro número, aquele que não aparece nas manchetes mas está lá, silencioso e imenso: 37% do eleitorado ainda não sabe em quem votar. Não é indecisão de última hora, não é mero desinteresse. É um terço do país dizendo, em voz alta, que nenhum dos caminhos oferecidos até agora merece confiança.

O placar frio, segundo o levantamento, é Lula com 40% das intenções de voto contra 32% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. No segundo, a vantagem cai para 48% a 43%, a menor já registrada pelo instituto em cenários envolvendo o atual presidente e um filho do ex-capitão. A rejeição também está praticamente empatada: 48% rejeitam Flávio, 46% rejeitam Lula. Três pontos percentuais separam os dois na margem dos que não votariam de jeito nenhum. E a cereja do bolo amargo: 3% dos entrevistados citam Jair Bolsonaro espontaneamente, mesmo ele estando inelegível. O pai segue como sombra, um recall tão forte quanto incômodo para quem tentava imaginar que o bolsonarismo sem Bolsonaro seria uma página virada.

O retrato do Datafolha Lula Flávio é o de um país partido ao meio

A polarização que tantos analistas diziam estar em baixa está viva, pulsando e, pior, cristalizada. O Datafolha Lula Flávio revela que quase metade do eleitorado rejeita cada um dos polos. Isso não é apenas divisão de opinião; é aversão consolidada. O voto de um lado não nasce de adesão entusiasmada, mas do medo do outro. É a lógica do “voto útil” que domina o raciocínio de milhões, e ela tem nome: antipetismo versus antibolsonarismo. E quando a campanha se resume a isso, o debate público vira um ringue de acusações, não uma arena de projetos.

E o que os indecisos estão vendo? De um lado, um presidente que carrega a ficha corrida do lulismo histórico, com acertos sociais que eu respeito, mas também com uma incapacidade crônica de sair da trincheira discursiva. Do outro, um herdeiro político que tenta copiar o manual do pai sem o mesmo capital simbólico, apostando no caos como plataforma. Enquanto um chama o outro de golpista e o outro responde chamando o primeiro de ladrão, os 37% que não escolheram lado ficam de braços cruzados, esperando alguém que fale de futuro sem ser panfleto. Trata-se de um eleitorado órfão, que não quer salvadores da pátria nem messias de palanque; quer gestão, previsibilidade, algo que pareça vida real.

A armadilha do “nós contra eles”

Eu sempre defendi que a política deve ser o campo do argumento, não do grito. Por isso, ver a esquerda comemorar essa dianteira como se fosse uma vitória antecipada é perigoso. A rejeição de Lula subiu, e isso não pode ser ignorado. A pesquisa Datafolha Lula Flávio mostra um presidente que, mesmo liderando, carrega um desgaste que não existia em 2022. Naquela eleição, Lula chegou a ter rejeição na casa dos 40%, mas a vantagem sobre Jair Bolsonaro era mais confortável. Agora, a margem de erro e a atração de indecisos podem virar o jogo em poucas semanas.

Do lado oposto, Flávio Bolsonaro enfrenta o desafio de unir o espólio bolsonarista sem ser o pai. O recall de Jair, com aqueles 3% espontâneos, é uma faca de dois gumes: mostra que a marca não morreu, mas também evidencia que o filho não é a mesma coisa. O eleitor bolsonarista raiz desconfia de sucessores; quer o original. Se Flávio não conseguir converter esse capital simbólico em apoio real, pode perder justamente a fatia que o levaria ao segundo turno com força. A pesquisa Datafolha Lula Flávio, portanto, não dá vitória a ninguém. Dá medo a ambos.

Onde estão os 37% que decidirão 2026

Esse contingente de indecisos não é uma massa homogênea. Há desde o jovem que se desiludiu com a política institucional até o trabalhador que sente no bolso a inflação dos alimentos e não vê resposta convincente de nenhum dos lados. A economia, aliás, deveria ser o palco principal, mas está ofuscada por uma guerra cultural interminável. A grande verdade que o Datafolha Lula Flávio escancara é que o eleitorado não está apático; está exausto. Quem falar primeiro uma linguagem de solução, e não de ressentimento, pode levar essa fatia. E quem levar essa fatia leva a eleição.

A campanha de Lula, se for inteligente, precisa abandonar o triunfalismo e entender que o antipetismo não morreu, só estava adormecido. Flávio Bolsonaro, por sua vez, vai precisar de mais do que imitar o tom bélico do pai. Precisa convencer o centro de que não é uma ameaça à democracia, algo que sua própria trajetória e o sobrenome tornam difícil. Eu, que me coloco no centro do espectro, a favor de pautas sociais da esquerda e da responsabilidade fiscal da direita, vejo nesses números uma janela. Uma janela para uma terceira via que, honestamente, ainda não apareceu. E se não aparecer, 2026 será uma reprise de 2022, só que mais cinzenta e com menos esperança.

Não se ganha eleição no grito. Não se governa com rejeição empatada e muito menos com um terço do eleitorado pedindo socorro silencioso. O Datafolha Lula Flávio não é só uma fotografia do momento; é um alerta grave para quem acredita que a polarização é um terreno estável. Ela é um chão rachado, prestes a ceder sob os pés de quem insiste em marchar sem olhar para os lados.

Fontes consultadas

  • Terra — Lula tem 48% e Flávio Bolsonaro 43% em eventual segundo turno, aponta pesquisa Datafolha — 24/07/2025 — link
  • Tribuna de Jundiaí — Novo Datafolha mostra Lula na liderança com 40%, Flávio Bolsonaro consolidado em segundo com 32% — 24/07/2025 — link
  • Liras da Liberdade — Datafolha aponta rejeição de 48% a Flávio e de 46% a Lula — 24/07/2025 — link
  • Jornal de Brasília — Lula tem 48%, e Flávio Bolsonaro, 43% no segundo turno, aponta Datafolha — 24/07/2025 — link
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