Crise do futebol brasileiro: a lição da Noruega
Não bastasse o 7 a 1, o Brasil inventou uma nova maneira de doer. A derrota da Noruega para a Inglaterra por 2 a 1 nas quartas de final do Mundial feminino não deveria passar em branco por aqui, mas a tendência é que a gente finja que o problema é do outro. A crise do futebol brasileiro não é sobre chuteira ou gramado: é sobre uma estrutura que apodreceu por dentro. E a eliminação precoce da Noruega, que antes de cair de pé contra as inglesas havia despachado o Brasil nas oitavas, escancara que o país pentacampeão virou um espantalho de glórias passadas.
O espelho que a Noruega quebrou
Cinco milhões de habitantes. Até outro dia, a Noruega era coadjuvante no cenário europeu. Hoje, com Haaland e companhia, decide partidas na prorrogação contra a Inglaterra enquanto o Brasil assiste de casa ao pior desempenho em 36 anos. Não é azar. Essa crise do futebol brasileiro se arrasta desde que o 7 a 1 deveria ter sido um ponto de inflexão e não foi. A resposta da CBF foi a mesma: dirigentes se reelegendo, técnicos contratados sem rumo e um calendário que insiste em estaduais ridículos enquanto uma liga nacional séria continua sendo utopia.
O mais cruel é que o sorteio desenhou um caminho. Se o Brasil tivesse passado pela Noruega, enfrentaria a Inglaterra e, do outro lado da chave, a Argentina. Uma final entre as duas maiores seleções da história era mais do que possível. Mas o time não chegou lá porque virou coadjuvante do próprio destino. A Noruega não é tecnicamente superior ao Brasil, mas é organizada. Tem um projeto. A CBF, por sua vez, parece uma confraria que trata o futebol como balcão de negócios.
O sistema que enterra o talento
Não adianta apontar o dedo para os jogadores. O problema é o sistema que os forma e os gerencia. No último ciclo, o Brasil teve quatro técnicos em menos de quatro anos: Ramon Menezes, Fernando Diniz (acumulando com o Fluminense), Dorival Júnior e Carlo Ancelotti. Ancelotti só assumiu em maio de 2025, menos de um ano antes do Mundial, sem tempo para criar identidade tática. A Conmebol e a Fifa podem ter suas regras, mas a verdade é que a crise do futebol brasileiro se aprofunda porque a entidade máxima do esporte no país é um feudo. Ednaldo Rodrigues foi reeleito, depois deposto, e o futebol que se dane. Enquanto dirigentes brincam de poder, o Brasil amarga a pior campanha desde 1990.
Um caso comum ilustra bem isso: jovens como Estêvão e Endrick chegam à Seleção sem raiz, moldados por esquemas táticos europeus que matam a criatividade. O modelo vende garotos de 16 anos para clubes da Europa, prioriza a vitrine comercial em vez da base. Não há projeto técnico de longo prazo. Não há escola de treinadores. Há uma máquina de moer talento para encher os bolsos de empresários e dirigentes. E quando o craque não decide na hora do pênalti, como Vini Jr. contra a Noruega, a culpa não é dele, é de um sistema que nunca o preparou para isso.
A lição que o Brasil insiste em engavetar
Olhe para a Alemanha. Depois de perder a final de 2002, o país reestruturou todo o futebol. Criou centros de treinamento, reformulou a formação de atletas, investiu em técnicos. Resultado: conquistou a Copa de 2014. O Brasil, após o 7 a 1, não mudou absolutamente nada. A crise do futebol brasileiro não é fruto de uma geração fraca, é fruto de uma gestão criminosa. Enquanto a CBF for controlada por federações estaduais que sobrevivem de estaduais inúteis e de um calendário inchado, o Brasil continuará sendo eliminado por seleções como a Noruega. Não é questão de talento, o Brasil tem talento de sobra. É questão de organização, de profissionalismo, de amor à camisa em vez de amor ao dinheiro.
Doze anos depois do 7 a 1, aprendemos zero. A Alemanha aprendeu com a derrota. O Brasil aprendeu a empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Enquanto a CBF for o que é, qualquer discussão sobre tetra, penta ou hexa é piada de mau gosto. O Brasil pentacampeão virou uma grife que empresários usam para lucrar, enquanto o futebol brasileiro sangra. É hora de parar de culpar jogadores ou técnicos e olhar para o sistema podre que transforma a Seleção em um cabide de empregos. A crise do futebol brasileiro tem nome, sobrenome e endereço: sede da CBF, Rio de Janeiro. Enquanto não houver reforma real, sem intervenção de cartolas, vamos continuar chorando eliminações para Noruegas da vida, e fingindo que não vemos.
Fontes consultadas
- CNN Brasil — Seleção Brasileira faz pior campanha em Copas desde 1990 — 05/07/2026 — link
- ESPN — Norway 1-2 England (Jul 11, 2026) Final Score — 11/07/2026 — link
- Sportinforma — Caos na Confederação Brasileira de Futebol. Presidente é destituído a poucos dias da chegada Ancelotti — 16/05/2025 — link
- Terra — Reestruturação da base rende à Alemanha geração promissora — 05/06/2014 — link