terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Crise diplomática Brasil EUA: o despreparo de Lula

Crise diplomática Brasil EUA: o despreparo de Lula
Foto: Roy Serafin / Pexels

A crise diplomática Brasil EUA não é só mais um capítulo nas relações turbulentas entre as duas maiores democracias das Américas. É o sintoma de um despreparo estratégico que o governo Lula precisa reconhecer antes que o estrago se torne irreversível.

Nas últimas três semanas, Washington descarregou sobre Brasília uma sequência de golpes que deixariam qualquer chancelaria de cabelo em pé. Tarifas de 25%, depois mais 12,5%, elevando a taxação para até 37,5% sobre quase metade das nossas exportações, de acordo com reportagem do Contraluz. Sanções renovadas com base em alegações que o Itamaraty considera infundadas. A indicação de um embaixador para Brasília atropelando a Convenção de Viena, com o anúncio do nome antes mesmo do pedido de agrément. O envio de dois diplomatas para questionar a integridade das urnas eletrônicas brasileiras e se reunir com o senador Flávio Bolsonaro. E, como cereja desse bolo indigesto, a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, chefe da missão brasileira em Washington, conforme noticiado pelo Contraluz.

O Planalto acertou ao barrar a missão intervencionista americana. Foi uma defesa correta da soberania nacional. O erro começou antes e continua agora. A pergunta que precisa ser feita é se o Brasil está preparado para esse jogo e a resposta, infelizmente, é não. E não se trata de torcida contra o governo, mas de constatação dura.

O despreparo diante da crise diplomática Brasil EUA

O primeiro equívoco de Lula foi achar que o Donald Trump de 2026 seria o mesmo de 2008, com quem ele mantinha uma relação pessoal cordial. Não é. Este Trump é um presidente em fim de mandato, sem possibilidade de reeleição pela legislação americana, governando por vingança e fidelidade a aliados ideológicos. Ele não quer parceiros; quer vassalos. A lógica não é comercial, é de dominação simbólica e retribuição a apoiadores. Quem ainda insiste em tratar esse governo como um interlocutor normal está fadado a ser atropelado.

O segundo erro foi não ter uma estratégia de contenção de danos montada desde o primeiro tarifaço. O governo reagiu com notas de repúdio e discursos sobre soberania, corretos no conteúdo, mas insuficientes na forma. Entre a primeira tarifa e a revogação do visto, não se viu uma ofensiva diplomática real. Nenhuma missão de alto nível enviada a Pequim, Nova Déli ou Bruxelas para abrir mercados alternativos com urgência. Nenhuma articulação visível com a Organização Mundial do Comércio. Nenhum plano B para os setores exportadores que estão sangrando. O agronegócio, o aço e a indústria de transformação brasileira estão à deriva, esperando que a tormenta passe.

O terceiro erro foi subestimar o timing eleitoral. Em outubro o Brasil vota para presidente. Trump está jogando para desestabilizar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro, isso é óbvio, está documentado pela própria sequência de eventos, e o Planalto acertou ao denunciar. Mas denunciar não basta. É preciso ter estratégia para neutralizar a interferência sem cair na armadilha de transformar a crise em palanque. Cada nota de repúdio que parece pensada para a militância, e não para a comunidade internacional, enfraquece a posição negociadora brasileira.

O Itamaraty, esvaziado nos últimos anos por cortes orçamentários e perda de quadros experientes, não conseguiu acompanhar a velocidade da agressão. Faltou inteligência antecipatória, faltou coordenação com o setor privado, faltou ousadia. O Brasil tem razão no mérito, mas razão sem presença e sem poder de retaliação proporcionada é só um suspiro no vento.

O que o Brasil precisa fazer para virar a crise diplomática Brasil EUA

O primeiro passo é a diversificação comercial imediata. Não dá para 48,7% das exportações brasileiras ficarem à mercê de um parceiro que age com hostilidade declarada. É hora de acelerar acordos com União Europeia, China, ASEAN, países árabes e África. O acordo Mercosul-União Europeia precisa sair do limbo. O Mercosul precisa funcionar como bloco comercial de verdade, com preferências tarifárias reais e cadeias produtivas integradas, não apenas como foro de cúpulas.

O segundo passo é aproveitar a janela do BRICS. Com a presidência brasileira do bloco, Lula deveria convocar uma cúpula extraordinária para coordenar respostas comerciais conjuntas ao protecionismo americano. O Sul Global precisa de um sistema de pagamentos alternativo ao dólar e o Brasil deveria liderar essa construção, não apenas falar sobre ela em discursos. A tecnologia existe, a vontade política de parceiros como China, Índia e África do Sul existe, só falta o protagonismo brasileiro.

O terceiro passo é fortalecer a indústria de defesa e tecnologia própria. Depender de componentes americanos para setores estratégicos é suicídio geopolítico. O Brasil precisa investir pesado em semicondutores, inteligência artificial e cibersegurança com parceiros confiáveis e diversificados. O Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, em Campinas, tem capacidade para liderar esse esforço, mas precisa de investimento e mandato claro.

O quarto passo é reconstruir o corpo diplomático. O Itamaraty foi esvaziado nos últimos anos. É preciso recompor quadros, abrir novas embaixadas em países estratégicos do Sudeste Asiático e da África, e profissionalizar a diplomacia comercial. Não adianta ter razão se você não tem presença. Cada adido comercial em posto-chave é um soldado na guerra silenciosa do comércio global.

O quinto passo é separar a política externa da briga eleitoral. Lula precisa blindar o Itamaraty da campanha. A crise com os EUA não pode ser apenas um factoid de palanque; precisa ser tratada como emergência nacional, com diálogo suprapartidário e assessoramento técnico de alto nível. Convidar ex-chanceleres de governos anteriores para um conselho consultivo seria um gesto de grandeza e inteligência política.

O cenário é grave, mas não é irreversível. O Brasil é grande demais para ser tratado como pária e os EUA sabem disso. Mas só vamos virar esse jogo quando pararmos de reagir com indignação e começarmos a agir com estratégia. A soberania não se defende apenas com notas oficiais, mas com rotas comerciais alternativas, parceiros confiáveis e um plano nacional de autonomia tecnológica. O tempo da reação acabou. Começou o tempo da ação.

Fontes consultadas

  • Agência Brasil — Tarifa de 37,5% dos EUA atinge US$ 6,6 bi em exportações do Brasil — 24/07/2026 — link
  • Poder360 — Entenda o que acontece agora com a embaixadora brasileira nos EUA — link
  • Metrópoles — Governo Trump cancela visto de embaixadora do Brasil nos EUA — link
  • Brasil 247 — Brasil segura aprovação de novo embaixador dos EUA para evitar interferência eleitoral — link
  • CNN Brasil — TSE explicará aos EUA funcionamento das urnas do Brasil — link
  • Gazeta do Povo — Ações contra Flávio Bolsonaro e dosimetria recolocam Moraes na mira da Lei Magnitsky — link
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