Copa Feminina 2027: por que sou a favor do país parar para elas
Tem notícia que a gente lê e já sabe o coro que vem: “ah, mais um feriado”, “país da bagunça”, “assim não se produz”. Então já aviso: sobre a lei da Copa do Mundo Feminina de 2027, eu estou do lado oposto desse coro. E vou explicar por quê.
O Brasil sancionou a Lei 15.421, de 2026, com as regras para o Mundial feminino, que vai acontecer aqui entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, a primeira vez que um país da América do Sul recebe a competição. As sedes são Rio de Janeiro, no Maracanã, Salvador, na Fonte Nova, e São Paulo, em Itaquera. E a parte que virou barulho: a lei permite que a União decrete feriado nacional nos dias de jogo da Seleção, autoriza estados e municípios-sede a fazerem o mesmo, e, o ponto mais concreto, obriga as escolas, públicas e privadas, a ajustarem o calendário para que as férias do primeiro semestre de 2027 caiam durante a Copa.
O que a lei faz de fato
Vale a precisão, porque desinformação nesse tema é fácil. Os feriados são uma autorização, um “poderá”, que depende de decreto de cada governo. O que é de fato uma mudança obrigatória é o calendário escolar, que será remanejado para o país conseguir viver a Copa. Ou seja, ninguém está impondo recesso nacional na marra. Está se organizando o país para que ele possa parar e assistir, como sempre parou para o futebol masculino, sem que ninguém achasse aquilo um absurdo.
Por que isso importa mais do que parece
E é esse o ponto que me interessa. Durante décadas, o Brasil parou para a Copa masculina como quem cumpre um ritual sagrado. Empresa liberava, escola soltava, a rua enfeitava. Ninguém, nenhum guru da produtividade, subia numa tribuna para dizer que aquilo destruía o PIB. Agora que se trata da seleção feminina, de repente o país descobre uma preocupação súbita com a jornada de trabalho. Curioso, não?
Tratar o futebol feminino com o mesmo peso que se dá ao masculino não é mimo, não é frescura, não é “pauta identitária” pra irritar quem gosta de se irritar. É reparação de uma conta longa. Foi proibido por lei que mulheres jogassem futebol neste país por décadas. Décadas. As meninas que vão entrar em campo em 2027 carregam nas costas todas as que não puderam. Se o Estado agora organiza o país para valorizar isso, eu bato palma. Sem constrangimento nenhum.
A conta que sempre querem que a gente pague
Repare no argumento que vem contra: “vai atrapalhar a economia”, “vai baixar a produtividade”. É sempre a mesma régua, aquela que mede a vida das pessoas só pelo quanto elas produzem para os outros. É a lógica que acha natural o país parar para uma final masculina, mas trata como luxo o país celebrar as mulheres. Eu não compro. A economia existe para servir a sociedade, não o contrário. Um país que não pode nem comemorar as próprias conquistas está confundindo meio com fim.
Vai dar trabalho organizar? Vai. Escola remanejando férias, cidade-sede se preparando, logística que não é simples. Mas isso é problema de execução, e problema de execução se resolve. Não vira desculpa para transformar um avanço em ameaça.
Em 2027, quando a bola rolar no Maracanã lotado para ver a Seleção feminina, quero ver quem reclamou do feriado ter a coragem de não assistir. Eu vou estar lá, na frente da TV, torcendo. E achando ótimo que, pela primeira vez, o país inteiro tenha sido convidado a parar para elas também.