sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Candidatos ao Senado no RS empatam com 39% indecisos

Candidatos ao Senado no RS empatam com 39% indecisos
Foto: Ivett M / Pexels

A nova pesquisa Quaest sobre os candidatos ao Senado no RS escancara um problema que vai muito além da corrida local: o eleitor brasileiro não dá a mínima para o Legislativo. Os números, divulgados neste início de semana, mostram cinco nomes tecnicamente empatados dentro da margem de erro de três pontos percentuais: Manuela D’Ávila (12%), Rigotto (9%), Paulo Pimenta (9%), Marcel Van Hattem (7%) e Sanderson (6%). Com 39% de indecisos, fica claro que a disputa está completamente aberta. Mas o dado mais preocupante não é o empate. É o que ele revela sobre a nossa relação com a política.

O brasileiro tem um defeito crônico e perigoso: só presta atenção em cargo executivo. Passamos meses debatendo presidente, governador, prefeito. Brigamos em grupos de WhatsApp, escrevemos textões, decoramos planos de governo. Mas, quando chega a eleição do Legislativo, o cidadão digita qualquer número na urna ou repete o candidato da última eleição sem nem lembrar o que ele fez nos últimos quatro ou oito anos. A pesquisa no Rio Grande do Sul é o retrato mais cristalino desse descaso.

Por que os candidatos ao Senado no RS merecem sua atenção

O Senado é, na prática, a instituição que governa o país no médio e no longo prazo. É o Senado que segura ou libera um impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal. É o Senado que aprova ou barra indicações para embaixadas, agências reguladoras e para a diretoria do Banco Central. É o Senado que define o teto de endividamento dos estados, autoriza operações de crédito internacional e decide se um presidente conseguirá governar ou se passará quatro anos apanhando de uma oposição bem articulada.

Enquanto você está preocupado com o ocupante do Palácio do Planalto, são os senadores que pautam o que chega à mesa dele. Um presidente sem maioria no Senado não aprova nada relevante. Isso vale para a direita, para a esquerda e para o centro. A caneta presidencial só funciona se houver, do outro lado da Praça dos Três Poderes, um bloco de senadores disposto a votar junto. Basta lembrar de Fernando Collor, que caiu porque perdeu o Senado, ou de Dilma Rousseff, cujo impeachment foi articulado e consumado naquela casa. Lula, em seu terceiro mandato, sente na pele a dificuldade de negociar com uma bancada fragmentada e pouco orgânica.

E há um detalhe que torna tudo ainda mais grave: o mandato de senador é de oito anos. Oito. Isso significa que um candidato ao Senado no RS eleito em outubro influenciará a política brasileira até 2034. Você se lembra do que estava fazendo em 2018? Pois é. Oito anos é tempo suficiente para mudar a estrutura legal do país, aprovar emendas constitucionais, sabatinar dezenas de autoridades. Um voto mal dado, ou simplesmente aleatório, reverbera por quase uma década.

A armadilha dos 39% de indecisos

O alto índice de eleitores que ainda não sabem em quem votar não é sinal de ponderação, de um eleitorado crítico que analisa com calma as opções. É sinal de um eleitor que não faz a menor ideia do que um senador faz. E, enquanto o voto for dado no escuro, a chance de elegermos gente que transforma o gabinete em balcão de negócios é enorme. O Senado já foi chamado de “casa dos ex-governadores” e de “asilo político”. Em muitos estados, a disputa se resolve no nome mais conhecido, no ex-prefeito da capital, no ex-governador que quer manter influência, ou no candidato ungido pelo governador do momento.

O resultado é um Senado formado por uma mistura de caciques regionais, representantes de setores econômicos concentrados e, em menor número, políticos com genuína vocação legislativa. Não por acaso, projetos estruturantes para o país muitas vezes ficam parados enquanto pautas corporativas andam rapidamente. O eleitor que ignora a eleição legislativa está terceirizando as decisões que afetarão sua vida. É um cheque em branco assinado a cada dois anos para alguém que vai passar oito anos decidindo sobre saúde, educação, segurança e impostos.

A pesquisa Quaest no Rio Grande do Sul é um microcosmo do Brasil. O estado, que já foi palco de disputas ideológicas acirradas, hoje vê seus eleitores diante de uma sopa de letrinhas: Manuela D’Ávila representa a esquerda tradicional ligada ao PCdoB; Germano Rigotto, o centro emedebista que governou o estado; Paulo Pimenta, a esquerda petista alinhada ao governo federal; Marcel Van Hattem, a nova direita liberal; e Sanderson, a direita bolsonarista ligada à segurança pública. São perfis bem diferentes, com visões de mundo que podem levar o estado e o país para caminhos bem distintos. E ainda assim, 39% não conseguem escolher. É o retrato de uma democracia em que o debate público se concentra apenas na ponta mais visível do poder.

O voto legislativo é um ato de defesa da democracia

É preciso virar essa chave. Acompanhar os candidatos ao Senado no RS com o mesmo critério que se acompanha a corrida presidencial não é um favor cívico, é uma obrigação de quem entendeu que a política não se esgota no Executivo. Vote em quem quiser, mas vote sabendo o que aquele senador defende, como ele se comportou em cargos anteriores, quais são suas bandeiras, quem financia sua campanha e com que aliados ele pretende andar em Brasília. O Senado é o espaço onde a paciência e a estratégia valem mais do que o grito. Lá dentro, um parlamentar articulado pode construir maiorias silenciosas que aprovam ou derrubam pautas sem que o noticiário dê conta.

A indiferença do eleitor é o maior trunfo dos maus políticos. E uma pesquisa com 39% de indecisos a poucos meses da eleição é um convite para que campanhas apostem no óbvio, no palanque fácil, no discurso raso que não informa nada. Está na hora de exigirmos de todos os candidatos ao Legislativo o mesmo nível de transparência e debate que cobramos dos candidatos a presidente. Do contrário, continuaremos elegendo senadores no escuro, reclamando do resultado e esperando que um salvador no Executivo resolva tudo. E salvador, como já aprendemos das piores formas, nunca resolve.

O Senado não é um detalhe. É a engrenagem que move ou trava o país. E o Rio Grande do Sul, com sua eleição embolada, está nos dando uma chance de acordar.

Fontes consultadas

  • CNN Brasil — Quaest: disputa do Senado no RS tem empate técnico entre cinco nomes — 30/07/2026 — link
  • Poder360 — Pesquisa mostra empate entre 5 candidatos ao Senado no RS — 30/07/2026 — link
  • Metrópoles — Genial/Quaest: Manuela, Rigotto e Pimenta lideram votos ao Senado no RS — 30/07/2026 — link
  • Sul21 — Quaest no RS: Com alto índice de indecisão, Juliana Brizola e Zucco empatam no 2º turno — 07/2026 — link
  • Grupo Repórter — Pesquisa Quaest mostra cinco candidatos tecnicamente empatados ao Senado no RS — 30/07/2026 — link
  • Portal de Notícias (com base na Zero Hora) — Pesquisa Quaest: veja como está a disputa para o Senado pelo RS — 30/07/2026 — link
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