Brasil autossuficiente: além da briga de gigantes
A declaração do presidente Lula, de que não é ‘louco’ de brigar com EUA e China porque não tem ‘aviões, tanques, bombas’, reacende um debate essencial sobre o significado de um Brasil autossuficiente. A fala, captada em evento recente e repercutida com força na imprensa, revela mais sobre nossa psique nacional do que sobre a real geopolítica. Ninguém, absolutamente ninguém em sã consciência, sugeriu que o país desafiasse militarmente as duas maiores potências do planeta. A pergunta que fica é outra: será que o destino do Brasil é viver permanentemente acuado, justificando a inércia com a mera constatação da própria fragilidade?
O complexo de vira-latas e a falsa guerra
Essa confissão presidencial, ainda que bem intencionada, ecoa um velho complexo de inferioridade que Nelson Rodrigues já diagnosticava. O mundo moderno não é definido, em primeiro lugar, pelo poderio bélico bruto. Se assim fosse, a Rússia seria a nação mais respeitada do planeta, e a Alemanha ou o Japão, potências puramente civis, estariam condenados à irrelevância. Não é o que se vê. O que conta, cada vez mais, é a capacidade de inovação, a resiliência da cadeia produtiva, a segurança energética e, sim, a habilidade de atrair parceiros e moldar regras internacionais. Um Brasil autossuficiente nessas dimensões valeria mais do que qualquer esquadra de blindados.
O problema da declaração não está em reconhecer uma desvantagem militar, fato inconteste. Está em sugerir, mesmo que por contraste, que a política externa se resume a uma escolha entre submissão e confronto. É uma falsa dicotomia. O caminho da autonomia passa por um trabalho interno árduo, que não exige provocar Washington ou Pequim, mas tampouco pedir licença a elas para cada movimento estratégico.
O caminho para um Brasil autossuficiente
O que seria, afinal, um Brasil autossuficiente? Certamente não um país fechado, isolacionista, que rompe com o mundo. Seria uma nação que consegue, por exemplo, processar a maior parte do minério que extrai em vez de exportá-lo bruto. Um país que desenvolve semicondutores, vacinas, software e máquinas agrícolas com tecnologia própria, em vez de apenas comprar patentes. Uma potência que transforma sua liderança ambiental em ativo diplomático e econômico, e não em moeda de chantagem de fundos internacionais.
Para trilhar esse rumo, é preciso abandonar o mantra do “livre mercado” como panaceia. É uma ilusão neoliberal que seduziu várias gestões em Brasília. A verdade é que nenhuma grande economia do mundo ascendente adotou a abertura total sem salvaguardas. A China protegeu suas indústrias nascentes, os EUA subsidiam pesadamente seu agronegócio e tecnologia, a União Europeia ergue barreiras fitossanitárias que são, na prática, protecionismo. O Brasil precisa de uma política industrial moderna, seletiva e pragmática. Isso não é ser “de esquerda” ou “de direita”; é ser minimamente inteligente na defesa dos próprios interesses.
Trump, a soberania e o bom senso
Quando olhamos para o cenário global, especialmente para a postura agressiva e transacional de Donald Trump, fica evidente que o mundo não é um jardim de boas intenções. Trump, com suas tarifas punitivas e seu desdém por alianças multilaterais, mostrou que mesmo a maior economia do planeta pode agir como um elefante numa loja de cristais. É preciso, portanto, coragem para não cair no jogo de subordinação, mas também discernimento para não responder com bravatas vazias. A política externa de Trump foi um desastre para a estabilidade global, atropelando acordos climáticos, comerciais e de segurança. No entanto, a lição que o Brasil pode extrair é que a verdadeira soberania se constrói com solidez econômica e coesão social internas, e não com discursos inflamados.
Não se trata de imitar o protecionismo tosco ou o bullying diplomático. Trata-se de entender que as regras do comércio internacional são, e sempre foram, assimétricas. O Brasil já perdeu muito ao acreditar na boa vontade dos poderosos. Cada hectare de terra que produz grãos para exportação sem agregar valor é uma oportunidade desperdiçada de gerar empregos qualificados e renda perene. O país não precisa brigar com ninguém, mas precisa parar de se submeter à lógica de que somos apenas um grande fornecedor de matéria-prima.
Um projeto de nação, não um reflexo de medo
Lula acerta ao ser pragmático e realista. Sua capacidade de diálogo com polos opostos é um trunfo diplomático. Mas a fala sobre aviões, tanques e bombas, captada em um momento informal, não pode ser o horizonte estratégico do Brasil. O que o país precisa não é de uma desculpa para a passividade, mas de um projeto nacional que una setores produtivos, academia e governo em torno de metas de autonomia tecnológica e competitividade sistêmica.
Já tivemos lampejos desse caminho. A Embraer é uma joia da engenharia nacional. A Embrapa revolucionou a agricultura. O SUS, apesar das agruras, é um modelo de saúde pública. Falta amarrar esses êxitos em uma narrativa coerente de país, em que cada conquista setorial sinalize uma rota de soberania. Um Brasil autossuficiente não precisa ameaçar ninguém. Pelo contrário, seria um parceiro muito mais interessante e respeitado, justamente porque teria voz própria.
Encerro com uma convicção simples: não é o número de tanques que constrange as grandes potências, mas a percepção de que um país tem um rumo e sabe defendê-lo com inteligência. O Brasil pode, e deve, aspirar a ser um ator central do século XXI. Isso não virá com bravatas, mas também não chegará se continuarmos nos vendo como um quintal que precisa pedir desculpas por existir.
Fontes consultadas
- Poder360 — Lula diz que não é “louco” de brigar com China e EUA — 28/07/2026 — link
- Metrópoles — Lula diz que não é “louco” de brigar com EUA e China — 28/07/2026 — link
- Terra — Lula: Vocês acham que quero brigar com China e EUA? Eu não sou louco — 28/07/2026 — link
- Diário do Grande ABC — Lula: Vocês acham que quero brigar com China e EUA? Eu não sou louco — 28/07/2026 — link