terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Copa Feminina 2027: sou a favor do país parar para elas

Copa Feminina 2027: por que sou a favor do país parar para elas

Sobre a lei da Copa Feminina 2027 e os dois pesos

Acompanho a repercussão da Lei 15.421, de 2026, que estabelece as regras para o Mundial feminino no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, primeira vez que a América do Sul sedia a competição. As sedes são Rio (Maracanã), Salvador (Fonte Nova) e São Paulo (Itaquera). O ponto que virou polêmica: a União fica autorizada a decretar feriado nacional nos dias de jogo da Seleção; estados e municípios-sede podem fazer o mesmo. O mais concreto é a obrigação de escolas públicas e privadas ajustarem o calendário para que as férias do primeiro semestre de 2027 coincidam com o torneio.

Li o coro fácil que já se formou: “mais feriado”, “país da bagunça”, “assim não se produz”. Mas estou no campo oposto desse coro, e explico por quê.

O que a lei realmente muda (e o que não muda)

Precisão é necessária porque desinformação nesse tema corre solta. Os feriados são autorizações, um “poderá” que depende de decreto de cada governo. A mudança obrigatória de fato é o calendário escolar remanejado para que o país consiga viver a Copa. Ninguém impõe recesso nacional na marra. Organiza-se o país para que ele possa parar e assistir, como sempre parou para o futebol masculino sem que ninguém achasse aquilo um absurdo. Em 2014, quando o Brasil sediou a Copa masculina, decretos de feriado foram emitidos para jogos da Seleção em várias cidades, e não ouvi guru da produtividade reclamando. A diferença agora é que o evento é feminino, e isso incomoda alguns.

O peso da conta histórica

Durante décadas, o Brasil parou para a Copa masculina como quem cumpre ritual sagrado. Empresa liberava, escola soltava, rua enfeitava. Ninguém subiu numa tribuna para dizer que aquilo destruía o PIB. Agora que se trata da seleção feminina, surge uma preocupação súbita com a jornada de trabalho. Curioso, não?

Tratar a Copa Feminina 2027 com o mesmo peso do masculino não é mimo, nem frescura, nem “pauta identitária” para irritar quem gosta de se irritar. É reparação de uma conta longa. O Decreto-Lei 3.199, de 1941, proibiu mulheres de jogar futebol neste país sob o argumento de que era “incompatível com a natureza feminina”. A proibição só foi revogada em 1979. Décadas de apagamento. As meninas que vão entrar em campo na Copa Feminina 2027 carregam nas costas todas as que não puderam. Se o Estado agora organiza o país para valorizar isso, bato palma sem constrangimento.

A régua da produtividade (sempre seletiva)

Repare no argumento recorrente: “vai atrapalhar a economia”, “vai baixar a produtividade”. É a mesma régua que mede a vida das pessoas só pelo quanto elas produzem para os outros. A lógica que acha natural o país parar para uma final masculina, mas trata como luxo o país celebrar as mulheres. Não compro essa. A economia existe para servir a sociedade, não o contrário. Um país que não pode comemorar as próprias conquistas confunde meio com fim. Basta ver exemplos: na Austrália e Nova Zelândia, a Copa do Mundo Feminina de 2023 teve amplo apoio governamental, com feriados locais e flexibilização de horários, e a economia não desabou, turismo e comércio locais se beneficiaram.

Vai dar trabalho organizar a Copa Feminina 2027? Vai. Escola remanejando férias, cidade-sede se preparando, logística que não é simples. Mas isso é problema de execução, e problema de execução se resolve. Não vira desculpa para transformar um avanço em ameaça. Quando o Brasil sediou a Copa masculina em 1950, também houve remanejamento e ajustes, e ninguém questionou a legitimidade do evento.

Em 2027, quando a bola rolar no Maracanã lotado para ver a Seleção feminina, quero ver quem reclamou do feriado ter coragem de não assistir. Eu vou estar na frente da TV, torcendo. E achando ótimo que, pela primeira vez, o país inteiro tenha sido convidado a parar para elas também. A Copa Feminina 2027 não é apenas um torneio: é um símbolo de que o futebol feminino merece o mesmo respeito, a mesma estrutura e o mesmo carinho que o masculino sempre teve. Se para isso for preciso um dia de folga, que seja. O Brasil tem muito mais a ganhar do que a perder.

Fontes consultadas

  • Agência Senado (Senado Notícias) — Sancionada lei com as regras para a Copa do Mundo Feminina de 2027 — 02/06/2026 — link
  • Portal Planalto — Lei nº 15.421, de 2026 — 06/2026 — link
  • Gov.br – Memórias Reveladas — Baú da Política: o futebol feminino já foi proibido no Brasil e a política tem tudo a ver com isso — 24/07/2023 — link
  • Rádioagência Nacional (Agência Brasil/EBC) — Fifa anuncia as oito cidades-sede da Copa Feminina no Brasil em 2027 — 08/05/2025 — link
  • Lance! — Copa do Mundo Feminina 2023 gerou impacto econômico de R$ 4,3 bilhões para a Austrália — 27/02/2024 — link
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