quinta-feira, 9 de julho de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
Contraluz

Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Michelle x Flávio: a direita que odeia velha política brigando por herança

Michelle x Flávio: a direita que odeia velha política brigando por herança

Deixa eu começar com a transparência de sempre: eu não sou bolsonarista, nunca fui, e não escrevo isto aqui com nenhuma vontade de ver a família bem. Mas justamente por olhar de fora é que a briga entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro me diz uma coisa maior sobre a política brasileira do que sobre eles.

Pra quem chegou agora: o estopim foi a articulação do PL no Ceará e a aproximação com o campo do Ciro Gomes. Michelle bateu o pé contra a aliança, disse que aquilo traía o que o grupo sempre pregou, e expôs publicamente um atrito de meses com o enteado. Falou em “punhalada”, disse que foi desrespeitada e humilhada, e largou o comando do PL Mulher. Flávio negou ter humilhado quem quer que seja e tratou tudo como divergência de estratégia. No fim de julho, na convenção do partido, ele deve ser confirmado pré-candidato à Presidência. E Michelle, empurrada pelo próprio Bolsonaro, deve acabar candidata ao Senado.

A direita que odeia “velha política” brigando por herança

É aqui que a ironia fica difícil de ignorar. O bolsonarismo se vendeu por anos como o fim da “velha política”, o oposto do toma-lá-dá-cá, o povo contra a casta. E o que estamos vendo agora? Uma disputa de herança. Uma sucessão dinástica, com sobrenome valendo mais que projeto, em que o debate não é sobre o que fazer pelo Brasil, e sim sobre quem tem o direito de carregar a marca registrada da família.

Isso não é exclusividade da direita, que fique claro. A personalização da política, o culto ao líder, a ideia de que um grupo pertence a um clã, isso é um câncer que aparece em vários espectros. Mas dói mais quando vem de quem prometeu exatamente o contrário. Trocaram o “mito” por uma briga de espólio, e ainda querem que a gente leve a sério a conversa de renovação.

Onde a Michelle tem um ponto

Agora, sendo justo, e eu faço questão de ser: no meio da briga, a Michelle levanta uma questão que transcende o lado dela. Ela reclama de ter sido tratada como enfeite, como cabo eleitoral de uma decisão tomada sem ela. E, olha, mulher tratada como decoração numa campanha é um retrato antigo e conhecido da política brasileira inteira. Se ela está incomodada de ser útil só na foto e ignorada na mesa, o incômodo é legítimo, venha de quem vier.

O problema é que ela transforma uma crítica que poderia ser universal numa disputa de vaidade dentro do próprio quintal. Em vez de virar uma bandeira sobre o lugar das mulheres na política, vira fofoca de sucessão. E aí a chance de dizer algo relevante se perde no ruído da novela.

O que sobra pra gente

No fim, confesso que assisto a isso com um distanciamento meio cansado. Enquanto a família decide quem é o herdeiro do trono, o país real continua com fila no SUS, com salário que não acompanha o mercado, com juro alto que sufoca quem tenta empreender. A pauta que interessa à sua vida não está nessa briga. Nunca esteve.

Se tem uma lição de centro aqui, é essa: desconfie de qualquer projeto de poder que gire em torno de um sobrenome, seja ele qual for. Política séria não se herda, se constrói e se cobra. E enquanto uns brigam pra ver quem fica com a marca, o resto de nós deveria estar de olho em quem, afinal, apresenta proposta pro Brasil que a gente vive de segunda a segunda.

Publicidade