terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Esportes

Argentina x Brasil: o que a garra argentina nos ensina

Argentina x Brasil: o que a garra argentina nos ensina
Foto: César O'neill / Pexels

A garra argentina contra o Brasil é um contraste que dói em qualquer brasileiro que acompanhou a semifinal da Copa de 2026. Ver a Argentina virar contra a Inglaterra aos 44 do segundo tempo, com dois passes de um Messi de 39 anos correndo como se fosse garoto, não é apenas frustrante. É um espelho. E o que ele reflete não é bonito.

Antes de avançar, uma pausa necessária. Não dá para falar da seleção argentina sem reconhecer o racismo que parte de sua torcida e até de jogadores. Em fevereiro de 2026, a advogada argentina Agostina Páez foi presa no Rio por gestos racistas contra brasileiros. Torcedores foram detidos no Morumbi por imitar macacos. Um senhor de 63 anos foi preso em Tiradentes por chamar um menino brasileiro de 7 anos de escravo. A Conmebol registrou 18 casos de racismo por ano entre 2023 e 2025. Jogadores argentinos cantaram ofensas racistas contra franceses em 2024. Isso não é rivalidade. É racismo estrutural, e como brasileiro isso me envergonha e revolta.

Volto ao futebol. O que a Argentina fez contra a Inglaterra foi um espetáculo de vontade. Perdendo por 1 a 0, não se entregou. Não caminhou em campo. Cada dividida era uma guerra. Messi, aos 39 anos, se jogava no chão para disputar bola como um estreante. Julián Álvarez pressionava a saída de bola inglesa como se a vida dependesse daquilo. Enzo Fernández, De Paul, Mac Allister, todos mordendo, todos acreditando.

A diferença que incomoda

Aí você olha para a seleção brasileira. O que aconteceu? O país do futebol virou um time que joga por obrigação. Os jogadores entram em campo como quem cumpre expediente. Talentos como Vini Jr., Rodrygo, Endrick e Estêvão brilham nos clubes, mas com a amarelinha parece que a camisa virou fardo. Não há fome. Não há desespero. Não há aquela dividida no meio-campo aos 48 do segundo tempo porque perder é inaceitável.

A Argentina joga com ódio. Joga como se cada partida fosse a última. Recusa-se a perder. O Brasil parece resignado. Lembra quando ser brasileiro no futebol significava alegria? Drible, improviso, sorriso, malandragem natural. O cara que jogava na praia, no campinho de terra, na laje, e no domingo resolvia o jogo com um lençol. Isso não morreu. Está enterrado debaixo de empresários, patrocinadores, assessorias de imagem, analytics e medo de errar. Nossos jogadores saem do Brasil cada vez mais cedo, mais formatados, mais robôs táticos. Esqueceram como se joga por amor. A Argentina também exporta jovens cedo, mas eles não perdem a alma. Enzo Fernández, Mac Allister, Lautaro jogam como argentinos. Nossos meninos jogam como funcionários do futebol europeu.

Onde o Brasil perdeu a essência?

Não gosto de dar razão aos argentinos. Mas seria burrice ignorar o óbvio: eles têm algo que nós perdemos. Não é tática, técnica ou esquema. É fome. É vergonha na cara. É entender que talento sem vontade é desperdício bem vestido. A Argentina vai jogar a final contra a Espanha no domingo. Pode ganhar ou perder, mas vai deixar tudo em campo. Vai sair exausta, suja, machucada, orgulhosa. O Brasil assiste pela TV. De novo.

E talvez isso seja o que mais dói. Não é odiar os argentinos. É saber que já fomos como eles. Que em algum momento, deixamos de ser. Que trocamos a alma do futebol por um contrato de patrocínio. Que permitimos que a paixão virasse produto. Que o drible virasse risco calculado. Que o gol virasse métrica. E que a camisa amarela, que um dia pesou como orgulho, hoje pesa como cobrança.

A garra argentina contra o Brasil não é sobre quem ganha mais títulos. É sobre quem ainda sente o jogo na pele. E, sinceramente, não sei se algum dia vamos recuperar isso. Talvez a gente precise reencontrar o futebol de várzea dentro de nós. Talvez precise deixar os meninos jogarem sem medo. Talvez precise lembrar que, antes de ser negócio, futebol é a coisa mais bonita que a gente inventou.

Enquanto isso, a Argentina nos ensina. E a gente, brasileiro, fica aqui tentando engolir a lição. Com um nó na garganta e uma ponta de inveja. Não dos títulos. Mas da fome. Daquela fome que um dia foi nossa e que a gente deixou morrer.

Fontes consultadas

  • Agência Brasil — Argentina ré por injúria racial no Rio está de volta ao seu país — 02/04/2026 — link
  • Estado de Minas — MG: argentino que comparou criança a escravo se torna réu — 06/2026 — link
  • ESPN / Terra — Argentinos são presos em flagrante no Morumbi por racismo contra torcida do São Paulo — 11/08/2023 — link
  • Brasil de Fato / CNN Brasil — Após caso de racismo, hino da Argentina é vaiado na França em jogo polêmico — 24/07/2024 — link
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