quinta-feira, 9 de julho de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Vinte por um: a aritmética macabra de Trump e a guerra que o mundo não pediu

Vinte por um: a aritmética macabra de Trump e a guerra que o mundo não pediu

Vou ser direto, porque o assunto não permite meio-termo: o que Donald Trump fez esta semana no Golfo Pérsico é a coisa mais irresponsável que vi um presidente americano fazer em muito tempo, e olha que a régua já era baixa.

Recapitulando pra quem não acompanhou. A guerra entre Estados Unidos e Irã começou em fevereiro, com os bombardeios americanos e israelenses que mataram parte da cúpula iraniana. Depois de meses de destruição, os dois lados fecharam em junho um memorando pra parar o fogo e reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa uma fatia enorme do petróleo do planeta. Era frágil, mas era paz. Durou poucas semanas.

Nesta semana o Irã voltou a atacar navios comerciais em Ormuz, e os Estados Unidos responderam atingindo cerca de 170 alvos militares iranianos em duas ofensivas, reimpondo sanções ao petróleo e voltando a bloquear o estreito. O Irã revidou mirando bases americanas no Kuwait e no Bahrein. Um bombeiro morreu num ataque a um aeroporto no sudeste do Irã. Isso não é força, é um pavio aceso no barril de pólvora mais perigoso do mundo.

Vinte por um

E o que o homem mais poderoso do planeta tinha a dizer? Do palco da cúpula da OTAN, em Ancara, Trump soltou pérolas: “acho que acabou”, “não quero mais lidar com eles”, e a frase que me tirou o sono, dita com um sorriso: eles batem uma vez, a gente bate vinte, e foi o que fizemos ontem à noite. Vinte por um. Ele transformou mortes em placar de jogo. Perguntado se os EUA voltavam à guerra total, respondeu que negociar era “perda de tempo” e completou: vamos só terminar o serviço.

Terminar o serviço. Que serviço? Não existe serviço limpo numa guerra dessas. Existe petróleo a 78 dólares o barril, existe gasolina mais cara no posto, existe uma região inteira à beira do abismo e existe um sujeito que trata política externa como reality show, medindo tudo por quem parece mais durão na frente das câmeras.

Aqui é onde eu preciso ser honesto sobre de onde eu falo. Eu não sou ingênuo com o regime iraniano. É uma teocracia autoritária, que reprime o próprio povo e financia violência pela região. Não estou aqui pra defender aiatolá nenhum. Mas ser contra o regime do Irã não me obriga a aplaudir a insanidade do outro lado. Dá pra condenar os dois. E entre um governo autoritário do outro lado do mundo e um presidente que, com poder de fogo para incendiar a economia global, escolhe a bravata, meu incômodo maior é com quem tem mais poder e mais responsabilidade. Isso é Trump.

A guerra sempre vira negócio

Porque no fim, é sempre a mesma lógica. A guerra vira negócio. O bloqueio ao estreito mexe no preço do petróleo, o preço do petróleo mexe no mercado, e tem muita gente ganhando dinheiro exatamente com o caos que empurra o resto do mundo pra fila do posto. É o livre mercado que tanto vendem: livre pra especular com a sua conta de luz, com o seu litro de gasolina, com a comida que encarece quando o frete encarece. Livre pra eles. Conta pra você e pra mim.

O que mais me assusta não é nem a decisão isolada. É a leviandade. É um chefe de Estado que fala em guerra com a mesma naturalidade com que anunciaria um torneio de golfe. Não vi um plano. Não vi um objetivo claro além de bater mais forte. Não vi uma palavra sobre o dia seguinte, sobre os civis, sobre como isso termina sem levar o mundo junto. Vi ego. E ego com porta-aviões é a combinação mais cara que a humanidade inventou.

Eu queria muito estar exagerando. Queria que fosse só barulho de campanha. Mas os mísseis são reais, os mortos são reais, e o Estreito de Ormuz fechado é real pra economia de todo mundo, inclusive a nossa aqui no Brasil, que sente no bolso cada solavanco do petróleo.

Fica o registro, então, pra quando cobrarem memória: não, isso não é liderança. Liderança não é contar mortos como pontos. O mundo não pediu essa guerra. Quem pediu foi o ego de um homem só. E a conta, como sempre, vai chegar pra quem nunca foi consultado.

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