Eólica offshore parada: o vento não assina decreto
Eólica offshore parada por falta de regulamentação é o retrato de um país que tem o vento a favor, mas não tem a vontade política de assinar a caneta. Segundo a ABEEólica, já foram protocolados no Ibama 59 empreendimentos, somando 135 GW de potência, espalhados pelo litoral do Nordeste, Sudeste e Sul. O potencial técnico total passa de 1.200 gigawatts, e as usinas poderiam gerar mais de 516 mil empregos até 2050. Não é falta de investidor interessado, é gargalo de Estado emperrando o próprio projeto de soberania energética.
O vento não espera, mas o decreto sim
O setor de energia eólica offshore está represado esperando um decreto federal que falta para completar a regulamentação da Lei 15.097/2025, o Marco Legal da Eólica Offshore. O atraso vem desde pelo menos junho de 2026. Para quem não acompanha o trâmite, explico: a lei foi sancionada, mas sem o decreto que define regras de cessão de áreas, leilões e fiscalização, os projetos não saem do papel. É como um software pronto, testado, mas sem a chave de produção. Fica tudo em ambiente de homologação, enquanto o usuário bate o pé esperando.
O dado mais impressionante não é o potencial técnico, que já é gigante, mas o número de empreendimentos protocolados: 59 projetos, somando 135 GW. Para dar escala, a capacidade instalada total do Brasil hoje, somando todas as fontes, fica em torno de 200 GW. Ou seja, os projetos de eólica offshore protocolados representam mais de dois terços de toda a matriz elétrica atual, e ainda nem começaram a ser construídos. O Nordeste concentra 62 GW, o Sul 53 GW e o Sudeste 19 GW, de acordo com os dados divulgados pela Associação Brasileira de Energia Eólica, a ABEEólica.
Eólica offshore parada é soberania energética adiada
Defendo com convicção a industrialização verde, e eólica offshore não é só energia limpa. É uma cadeia produtiva inteira: indústria naval, estrutura portuária, engenharia de alta complexidade, fabricação de turbinas, cabos submarinos, logística. É emprego qualificado gerado aqui dentro, em vez de importar equipamento pronto. Quando o Brasil atrasa essa regulamentação, não está apenas adiando megawatts, está adiando a formação de uma indústria nacional que poderia competir no mercado internacional.
Gosto de traduzir números em vida real. Cada gigawatt offshore instalado significa milhares de empregos diretos e indiretos, significa estaleiro trabalhando, significa porto movimentado, significa engenheiro formado em universidade pública sendo aproveitado no próprio país. O estudo citado pelo setor fala em 516 mil empregos até 2050, com valor agregado bruto de pelo menos R$ 900 bilhões. São números que, se fossem de um programa social, estariam na capa dos jornais. Mas como é energia, fica parecendo assunto técnico, quando na verdade é política industrial na sua forma mais concreta.
Atraso de uma década: o Brasil vai chegar em 2036
Especialistas apontam que, no ritmo regulatório atual, o Brasil só deve ter os primeiros projetos offshore em operação por volta de 2036. Leia de novo: 2036. São dez anos de espera, contando a partir de agora. A Europa e a China já estão construindo parques eólicos offshore em escala comercial há mais de uma década. O Mar do Norte é uma floresta de turbinas. A China adiciona dezenas de gigawatts por ano, não é projeto-piloto, é programa de Estado. Enquanto isso, o Brasil, que tem um dos melhores ventos do planeta, com fator de capacidade que faz inveja ao mundo, discute há anos um decreto.
Não sou ingênuo a ponto de achar que governo resolve tudo sozinho. Já fui liberal, acreditei em livre mercado como solução geral, e a vida me mostrou que não é bem assim. Mas também não acredito em estatismo cego, em que o Estado é dono do empreendimento. O que eu defendo é um Estado catalisador: aquele que cria as condições, que assina o decreto, que marca o leilão, que organiza a disputa e que garante que a riqueza gerada fique no país. Sem isso, o capital vai para onde o vento é bom e a regra é clara. O Brasil, neste caso, está jogando vento fora.
O discurso da transição energética não pode ficar só na COP, em discurso internacional bonito. Transição energética de verdade é decreto assinado, leilão marcado, linha de transmissão licenciada, é cadeia produtiva local desenvolvida. O que temos hoje é o oposto: um Marco Legal aprovado, mas capenga, esperando uma regulamentação que não sai. Enquanto isso, os projetos se acumulam no Ibama, e os investidores olham para o relógio e para os países concorrentes.
Termino com uma imagem que me persegue: 135 GW de projeto protocolado, 59 empreendimentos prontos para investir, bilhões de reais em potencial, e tudo parado por falta de um documento. O vento sopra, mas não assina decreto. A decisão é política, e a responsabilidade é de quem tem a caneta. Que a pressione do setor, das indústrias e dos trabalhadores que esperam esses empregos transforme essa espera em vergonha nacional, e que o decreto saia antes que o Brasil vire mais um caso de potencial desperdiçado. Eólica offshore parada não é destino, é escolha.
Fontes
- Eixos, Indústria pressiona por leilão de eólicas offshore ainda em 2026, acesso em 2026.
- Tecflow, Energia eólica offshore no Brasil: investimentos e regulamentação, 29/05/2026.
- ABEEólica, dados sobre empreendimentos protocolados no Ibama, 2026.