Plano Nacional de Cibersegurança é trincheira do Brasil
O Plano Nacional de Cibersegurança, o P-Ciber 2026-2027, chega em boa hora para um país que, segundo levantamento do setor de segurança digital, concentra 84% dos ataques cibernéticos registrados na América Latina. Mas plano que nasce gigante na intenção e minúsculo no orçamento é só slide bonito de PowerPoint.
Trabalho com tecnologia da informação há anos e vejo de perto o que acontece quando atualizar sistema é tratado como gasto. Não é. É segurança nacional no sentido literal, tão essencial quanto policiamento, corpo de bombeiros e defesa do território. E saber que o Brasil vive esse cenário não me assusta como surpresa; me revolta como diagnóstico.
Pense no que isso significa. De acordo com a notícia, um ataque hacker atingiu o sistema de alertas da Defesa Civil. Não foi um simples bug numa página de internet. Foi uma agressão a um mecanismo que existe para gritar “saiam de casa, vem enchente aí”. Quando esse sistema cai, a primeira vida que não será salva não aparece em dashboard corporativo. Ela aparece como mais uma estatística de tragédia que poderia ter sido evitada.
O alarme é o teste mais cruel de confiabilidade
Segurança digital de verdade não se mede pela quantidade de firewall instalado numa empresa. Mede-se por uma variável muito mais dura: as pessoas confiam no sistema? Num alerta de deslizamento, cada segundo de indecisão custa caro. Se a população deixa de confiar no alerta porque ele falhou uma única vez, o poder público perde algo que nenhuma campanha de comunicação recupera.
E não é só Defesa Civil. A notícia aponta setores de saúde, energia e transporte como os mais vulneráveis. Nenhuma economia funciona sem saúde. Nenhuma cidade funciona sem energia. Nenhum país soberano funciona sem transporte. Quando tudo isso está vulnerável, a conversa sobre soberania não pode se limitar a discutir quem fabrica chip ou quem desenvolve inteligência artificial própria. Há um elo mais básico e mais urgente: proteger a infraestrutura que mantém o país respirando.
Plano Nacional de Cibersegurança só funciona com orçamento permanente
Então, quando vejo o governo federal desenvolvendo o Plano Nacional de Cibersegurança, com previsão de fortalecer o CISC gov.br como centro federal de coordenação de resposta a incidentes em infraestrutura crítica, minha primeira reação é de alívio. A segunda é de desconfiança profissional. Já vi muitos planos bonitos em TI que morreram por falta de uma pergunta básica: quem vai operar isso quando o susto passar?
Segurança cibernética não começa e termina numa força-tarefa de crise. Ataques são contínuos, mutantes e cada vez mais organizados. Enquanto isso, a resposta pública muitas vezes é desenhada como projeto emergencial, com prazo de validade e sem âncora orçamentária. Aí a equipe treinada se dispersa, o datacenter volta a ser prioridade baixa e, três anos depois, uma nova crise expõe as mesmas falhas.
Sem orçamento permanente, sem quadro estável de servidores e analistas, sem salário que evite a evasão para a iniciativa privada, o mais ambicioso plano vira um balcão de atendimento que abre uma vez e se desmonta no meio da emergência seguinte. Não se trata de estatismo cego. Governo não precisa ser dono de tudo. Mas há tarefas que não podem ser terceirizadas para a ficção do mercado autorregulado, e a defesa civil da população em estado crítico é uma delas.
Falo isso sem romantismo. Já acreditei que o livre mercado resolvia tudo e fui desmentido pela realidade. Quem trata infraestrutura de alerta, energia e saúde como serviço comum, sujeito às regras do lucro, está vendendo segurança pública por pechincha. O setor privado tem um papel enorme na cadeia de segurança digital, sem dúvida. Mas a responsabilidade final de proteger vidas precisa de mão firme do Estado, com investimento fixo e prestação de contas.
Soberania digital começa protegendo o que já existe
Os números ajudam a dimensionar a urgência. Segundo os dados divulgados, foram 123 ataques de ransomware reivindicados no Brasil só até agosto de 2026, contra 148 em todo o ano de 2025. O patamar é altíssimo e ameaça se tornar a nova normalidade. Concentrar 84% dos ataques da América Latina não é falta de sorte ou acaso estatístico. É sintoma histórico de anos tratando infraestrutura crítica como se manutenção de sistema fosse luxo e não prioridade.
Há também uma lição de arquitetura de sistemas que todo mundo que trabalha com TI conhece na prática: a segurança não é um módulo separado, um departamento que fica ali no canto. Ela é qualidade transversal. Quando uma empresa constrói um sistema sem pensar em segurança desde o início, corrigir depois custa caro, quando custa. Nos anos 1990 e 2000, o Brasil viveu atrasos parecidos no saneamento básico e na telefonia. Agora repetimos o mesmo erro em outra dimensão: conectamos o país inteiro antes de proteger a porta de entrada.
O Plano Nacional de Cibersegurança tem o mérito de reconhecer o tamanho do problema. Mas todo plano precisa sobreviver ao ciclo político. Troca-se o ministro, muda o governo, e embriões de política pública costumam ser descartados como se fossem defeito da gestão anterior. Não podemos tratar a proteção de sistemas críticos como tema de governo A ou B. É tema de Estado, no mesmo patamar que defesa nacional, diplomacia e controle do espaço aéreo.
Quem mora perto de encosta, quem depende de hospital público, quem usa transporte coletivo todos os dias não tem escolha de desligar o sistema. Não pode achar que ataque cibernético é problema de banco e grande empresa. É problema de quem depende de um alerta para não dormir em casa quando a chuva destrói o bairro.
O P-Ciber que eu quero ver é o que funciona mesmo sem manchete. É o que mantém equipe permanente, treinamento contínuo e simulações periódicas. É o que não transforma o CISC gov.br em fachada institucional, mas em verdadeiro quartel-general de defesa digital. Porque ciberataque não é invasão com tanque, mas é invasão do mesmo jeito. E quem acha que isso é longe da nossa realidade deveria conversar com qualquer técnico que trabalhou na madrugada em que o sistema de alerta de uma cidade inteira caiu.