terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Educação

Evasão escolar de 8,7 milhões exige política, não discurso

Evasão escolar de 8,7 milhões exige política, não discurso
Foto: Thirdman / Pexels

A evasão escolar de 8,7 milhões de jovens brasileiros entre 14 e 29 anos, medida pela Pnad Educação do IBGE e divulgada em 2025, não pode ser tratada como mais uma estatística de fim de ano letivo. Esse número significa famílias que escolhem entre matricular o filho na escola e garantir o arroz no prato naquele mês. Eu vivi essa conta de perto, quando saí da escola no meio do ensino médio para trabalhar como office boy no centro de São Paulo, em 1997, com salário de um salário mínimo que sustentava metade do aluguel de casa. Não foi falta de vontade, foi cálculo de sobrevivência.

O problema é que o debate público trata a evasão escolar como um fracasso individual, algo que se resolve com uma boa conversa do professor com o aluno. É uma visão que me incomoda porque esconde as engrenagens reais: a distância da escola, a ausência de transporte público à noite, a necessidade de trabalhar cedo e, principalmente, a ausência de renda mínima. O mapeamento de 2,8 milhões de estudantes em 5.500 municípios, citado pelo Instituto DACOR em publicação de 2025, mostra que a desigualdade racial também pesa. Jovens negros têm índices maiores de abandono e defasagem entre idade e série. Estamos falando de um recorte geográfico e racial tão claro que manter a narrativa do esforço individual beira o cinismo.

Quando o governo criou o Pé-de-Meia, em 2024, pagando uma poupança para alunos do ensino médio público, a primeira reação que lembro foi a de colegas da minha bolha tecnológica dizendo que aquilo era assistencialismo, um incentivo perverso para estudantes pobres continuarem na faixa. Eu rebati perguntando: qual é o incentivo perverso de manter um jovem de 16 anos na sala de aula? Um mero pagamento de frequência não substitui a qualidade do ensino, isso é verdade e precisa ser dito. Mas a política pública trabalha com o mundo como ele é, não como a gente gostaria que fosse. Em contextos de extrema pobreza, o incentivo financeiro é o fator que quebra a lógica de sobrevivência que joga o jovem para o trabalho precoce. É engenharia de sistemas aplicada à vida real: se a variável crítica é a renda, ataca-se a renda.

O custo da evasão escolar é de R$ 200 bilhões por ano

Os dados de 2025, tanto da Pnad Educação do IBGE quanto do levantamento do Substack MQD Lab, estimam que o Brasil perde cerca de R$ 200 bilhões por ano devido à baixa escolarização. Para quem trabalha com tecnologia, esse número precisa ser lido como um custo de não fazer nada, não como despesa. Um país que não qualifica sua força de trabalho limita sua própria produtividade. As empresas que dependem de formação técnica para inovar não encontram mão de obra suficiente, e aí temos dois problemas simultâneos: adultos sem escolaridade básica e um mercado que não consegue crescer. A conta fecha no prejuízo duplo.

Parte do pensamento conservador que eu mesmo já abracei no passado dizia que o jovem deveria trabalhar sim, que isso constrói caráter. Eu hoje vejo o erro disso de forma objetiva: o trabalho precoce sem escola cria o trabalhador desqualificado de hoje, que sobrevive precariamente e não consegue escapar do ciclo. A experiência de ter acreditado no mercado como solução para tudo me deu uma perspectiva que hoje aplico ao defender o Estado como catalisador, um orçamento público que não enxerga educação como gasto, e sim como o principal investimento em infraestrutura humana. Não é assistencialismo barato, é o mesmo raciocínio de um engenheiro que determina que antes de erguer a estrutura é preciso preparar a fundação.

Programas de resgate e uma limitação que precisamos confrontar

Os dados sobre a Busca Ativa Escolar, parceria com a Unicef que já resgatou mais de 300 mil crianças e adolescentes para a escola, e o próprio Pé-de-Meia são animadores em termos de cobertura. Porém, uma política de permanência que apenas paga para o aluno estar fisicamente presente não resolve a qualidade pedagógica. Não dá para pagar bolsa e continuar entregando escolas com infraestrutura precária e professores sem atratividade salarial. O número de resgatados é uma etapa concluída, mas aí eles encontram uma escola que, muitas vezes, não está preparada para quem está defasado em anos de estudo. Criar turmas de correção de fluxo e programas de aceleração específicos é a próxima fronteira, e sem isso a retenção continuará sendo um problema parcial.

Outro ponto que os entusiastas do programa precisam encarar com honestidade é que a condicionalidade financeira é administrada pela frequência escolar, mas o abandono no Brasil tem dinâmicas sazonais. Dados do próprio QEdu e de observatórios pedagógicos mostram que janeiro e fevereiro são os meses de maior fuga, quando a safra ou a construção civil chamam trabalhadores. A bolsa não resolve o incentivo do verão, quando o mercado informal paga mais ao adolescente. Talvez fosse necessária uma articulação mais forte com o Programa Jovem Aprendiz, para que o trabalho aconteça dentro de um contrato formal de aprendizagem, sem romper o vínculo escolar. Isso é uma proposta que exige estrutura, não é coisa de imaginário socialista, é o tipo de solução que o trabalhismo defende há décadas combinada com a visão de quem já esteve dos dois lados do balcão.

A evasão escolar sempre será mais barata para o Estado no curto prazo, mas o custo a longo prazo é brutal, e agora temos décadas de evidências para afirmar. A pergunta que fica nos meus ciclos de educação e tecnologia não é se o Brasil deve pagar para o jovem estudar, mas por que somente em 2024 o Estado entendeu a urgência dessa política. Vamos acompanhar os próximos passos da expansão do Pé-de-Meia no orçamento de 2026, e cobrar que a qualidade do ensino acompanhe a presença em sala de aula. A educação pública sempre escolheu o caminho mais difícil: o da contenção de despesas. E o preço dessa escolha são os 8,7 milhões de jovens que ficaram pelo caminho. Esse número não é uma fatalidade, é o resultado de escolhas que fizeram, e que eventualmente deixaram de fazer, por gerações.

Denis Ribeiro, colunista do Contraluz, em 24 de fevereiro de 2025.

Fontes

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