terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Educação

Novo Ensino Médio muda de novo em 2026 e reduz itinerários

Novo Ensino Médio muda de novo em 2026 e reduz itinerários
Foto: Andy Barbour / Pexels

O Novo Ensino Médio que chega com força total em 2026 para o 2º ano não é exatamente o mesmo que foi vendido quando a reforma foi aprovada. Segundo a Rádio Itatiaia, a mudança, que já valia para o 1º ano desde 2025, agora alcança também o 2º ano, e o 3º ano entra na lista em 2027. Pela Lei 14.945/2024, a carga horária das matérias obrigatórias, como Português, Matemática, Inglês e Educação Física, subiu de 1.800 para 2.400 horas ao longo dos três anos. A parte flexível, os tais itinerários formativos, caiu de 1.200 para 600 horas. Para quem escolhe a educação técnica e profissional, a formação geral básica passou de 1.800 para 2.100 horas, com reforço em Física, Química e Matemática.

Eu acompanhei a implantação do Novo Ensino Médio desde que ele foi anunciado, lá atrás, e confesso que sempre tive o pé atrás. Não por conservadorismo. Quem me conhece sabe que sou defensor de escola em tempo integral, de educação profissional e de currículo conectado com o mundo real. O problema é que eu nunca vi nenhuma reforma educacional honesta sair do papel apenas com uma nova grade.

O problema dos itinerários sem estrutura

Na teoria, o itinerário formativo era bonito: o aluno escolhe aprofundar em exatas, humanas, artes ou linguagens, e com isso a escola vira um lugar mais interessante. Na prática, em muita escola particular com estrutura e professores bem pagos, talvez tenha funcionado. Mas em escola pública, onde falta professor de Física e a aula de Inglês é dada por quem fez Letras com habilitação em outra língua, o itinerário virou um nome bonito para menos aula de verdade. Não é opinião: a própria reforma de 2024 reconhece o tamanho do estrago ao devolver 600 horas para a formação geral.

Veja bem, eu passo meu dia trabalhando com sistemas. Se um software apresenta um erro, você não resolve colocando um botão bonito na interface enquanto o banco de dados continua corrompido. A educação brasileira tem o mesmo problema. O itinerário flexível era uma interface nova em cima de um sistema que já não entregava o básico. E o básico, aqui, é professor formado, presente e valorizado, com condições de planejar aula de verdade.

Por isso eu vejo com bons olhos esse recuo. Pode não ser perfeito, mas o pêndulo voltou para o lado que importa. Mais carga horária de Matemática, Português, Inglês, Educação Física e ciências é exatamente o que a base da pirâmide precisa. O aluno que estuda em escola pública não pode depender da sorte de cair num itinerário minimamente decente. Ele precisa de um piso comum forte, universal e exigente.

Mais hora de aula não é suficiente

O alerta, no entanto, continua. Aumentar a carga horária no papel não aumenta conhecimento na cabeça de ninguém. Segundo a Exame, a nova diretriz vale para todos os anos até 2027, e isso é um bom sinal de direção, mas o diabo mora nos detalhes. Quem vai dar aula de Matemática para essas 600 horas extras? Onde estão os professores de Física e Química formados, concursados e pagos decentemente? Sem formação inicial forte, sem concurso público e sem valorização da carreira docente, a mudança vira mais um remendo em um sistema que precisa de revisão estrutural.

Eu falo isso com a autoridade de quem já acreditou em outras coisas. Já fui liberal, já achei que o mercado resolvia tudo, inclusive educação. Demorei, mas aprendi que educação não é mercadoria e que escola não funciona com a mesma lógica de startup. Escola funciona com Estado presente, com política de Estado e com gente qualificada na sala de aula. Quando a gente terceiriza o aprendizado para itinerários desenhados às pressas, quem sofre é sempre o mesmo aluno que já chega com menos capital cultural em casa.

Não sou contra a flexibilização em si. Um currículo que dialogue com a realidade do estudante é positivo. Mas a flexibilização precisa acontecer depois de uma base sólida, não no lugar dela. A Lei 14.945/2024 acerta ao reduzir o espaço dos itinerários, mas o desafio real está na implementação. A Rádio Itatiaia lembra que as escolas precisam se adaptar às novas regras, e essa adaptação custa dinheiro, tempo e principalmente gente. Sem isso, a gente continua consertando a superfície enquanto a base segue rachada.

Um passo certo, mas ainda pequeno

O Novo Ensino Médio 2026 é, ao mesmo tempo, uma correção de rota e uma prova de fogo. Se as escolas conseguirem transformar essas horas a mais em aprendizado efetivo, a reforma pode finalmente fazer sentido. Se não, será apenas mais um capítulo de uma história que o Brasil conhece bem: mudanças na lei que não chegam à vida real.

Fico feliz de ver o pêndulo voltando para o lado certo. Mas continuo de olho, porque a régua que mede a Educação neste país não pode ser a quantidade de horas escritas no papel. A régua certa, essa sim, é o que o aluno aprendeu, o professor que ele encontrou e o futuro que ele pôde construir. Enquanto a gente não encarar isso com seriedade, reforma boa é reforma bem feita, não bem anunciada.

Fontes

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