terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Educação

Escola em tempo integral: a meta não pode ser só o número

Escola em tempo integral: a meta não pode ser só o número
Foto: Ahmet Kurt / Pexels

Quando falamos em escola em tempo integral, eu tenho duas reações que, à primeira vista, podem parecer contraditórias: entusiasmo por aquilo que essa política pode representar para as crianças pobres e desconfiança pela forma como o poder público costuma celebrar números antes de garantir qualidade. A notícia que chega pela Agência Brasil é animadora no papel: o Ministério da Educação está perto de levar o programa a 100% dos municípios brasileiros até 2026, com cerca de 90% já cobertos e a expectativa de 3,2 milhões de matrículas. O Censo Escolar de 2024 já mostrava uma alta de 5% nas matrículas de tempo integral. Mas eu não consigo comemorar sem fazer perguntas incômodas.

Antes que alguém me acuse de ser contra, deixa eu ser claro: eu sou a favor, e não por modismo teórico. Cresci numa família pobre, na base da pirâmide, e sei o que uma escola decente significa na vida de uma criança que não tem rede de apoio fora dela. Educação sempre foi, para mim, a base de tudo. É o que permite a uma pessoa sair de um destino que parece traçado e construir algo diferente. Então, quando vejo uma política de expansão do tempo integral sendo tocada em escala nacional, minha torcida é genuína.

Mas tem uma diferença entre torcer por uma política e aplaudir um indicador. Os repasses que podem chegar a R$ 2 mil por aluno no programa são condicionados, segundo a própria notícia, à expansão real de matrículas, e isso é um avanço importante. Não se paga pela adesão formal do município, se paga por criança matriculada de verdade. É um desenho que aprendeu com os erros das políticas que eram só carimbo e cartório. Ainda assim, matrícula é só a porta de entrada. A pergunta que fica é o que acontece depois que essa criança entra.

A escola em tempo integral exige estrutura, não só número

Vou usar uma comparação do meu mundo, porque trabalho com tecnologia e penso em sistemas o tempo todo. No desenvolvimento de software, existe um conceito de métrica de vaidade: um número que parece ótimo no relatório, mas não significa que o produto funciona. Um aplicativo pode ter milhões de downloads e continuar travando, sendo abandonado no dia seguinte. A matrícula em tempo integral corre o mesmo risco. Bater a meta de cobertura em 100% dos municípios e chegar a 3,2 milhões de alunos é o download. A permanência com aprendizagem, a qualidade da merenda, o espaço físico, a segurança e o professor preparado são o uso real. Confundir as duas coisas é um erro clássico de gestão.

Os especialistas ouvidos pelo Centro de Referências em Educação Integral apontam exatamente nessa direção: financiamento e formação de professores seguem como os principais desafios. Não é difícil concordar. De que adianta colocar uma criança na escola por mais horas se o professor está sobrecarregado, sem formação específica para o trabalho com jornada ampliada, ganhando um salário que não o incentiva a dar o melhor de si? De que adianta manter o aluno por mais tempo no prédio se não há refeitório adequado, biblioteca, laboratório ou mesmo um projeto pedagógico que organize esse tempo extra? Sem isso, o programa vira o que muita gente crítica chama, com razão, de depósito de criança. A intenção pode ser boa, mas o resultado é cruel justamente com quem mais precisava de uma escola transformadora.

Aqui entra a minha visão de política, que não cabe nos rótulos de esquerda e direita que insistem em nos empurrar. Eu já fui liberal, acreditei que o mercado resolvia tudo quando se tratava de educação, saúde e outras políticas sociais. A vida e o estudo me mostraram o contrário. Educação é infraestrutura de um país, e infraestrutura não se constrói com a mão invisível. Precisa de Estado, planejamento e investimento contínuo. Não sou estatista cego, não acho que o governo deva fazer tudo sozinho e muito menos acredito que decreto e orçamento substituem gestão competente. Mas sou trabalhista e soberanista na convicção: política social forte é o que impede um país de se desfazer.

Por isso mesmo, defendo a expansão do tempo integral com unhas e dentes, mas cobro execução com qualidade. Quero ver o MEC comemorando não apenas o percentual de municípios aderidos, mas a redução da evasão, a melhoria no aprendizado e a valorização dos profissionais da educação. Quero ver o programa sendo auditado por quem está na sala de aula e não só por quem olha planilha em Brasília. O recurso precisa chegar na ponta com velocidade, e a estrutura precisa ser pensada junto com a matrícula. Do contrário, vamos colher a decepção de uma política pública que começou com o pé direito e foi entregue pela metade.

Quando uma criança pobre chega em casa depois de um dia inteiro na escola, ela deveria chegar cansada de aprender, não de ficar esperando. Deveria trazer na mochila não só o caderno, mas a sensação de que o mundo pode ser maior do que o bairro onde ela mora. A escola em tempo integral é uma das ferramentas mais poderosas que um Estado pode usar para reescrever histórias. Mas ferramenta sem projeto, sem manutenção e sem mão de obra qualificada é só um objeto enferrujando no canto da oficina.

Fontes

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