Ideb 2025 expõe maquiagem na educação básica
O Ideb 2025, divulgado nesta quarta-feira (5) pelo MEC, foi anunciado como o maior índice desde 2005. É verdade, mas é uma verdade que esconde mais do que revela. O ensino médio público brasileiro foi de 4,1 para 4,3, numa escala que vai até 10. A meta de 5,2, que deveria ter sido cumprida em 2021, continua lá, intocada, sem prazo novo, sem cobrança pública proporcional ao tamanho do problema. Só os anos iniciais do fundamental, do 1º ao 5º ano, bateram a meta estipulada. O resto da educação básica segue devendo.
Fico incomodado com a forma como esse tipo de resultado é vendido à opinião pública. Manchete de recorde histórico soa bem em qualquer governo, de qualquer partido. Mas recorde histórico de quê, exatamente? De uma nota que ainda está quase um ponto inteiro abaixo do que o próprio poder público definiu como aceitável há mais de uma década. Isso não é comemoração, é administração de expectativas.
O truque das aprovações que ninguém quer nomear
O ponto mais grave desta edição do Ideb não é a estagnação em si, é o método usado por algumas redes estaduais para escapar dela. Segundo os dados oficiais do MEC e do Inep, redes como Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte melhoraram artificialmente seus índices ao alterar critérios de aprovação. No Rio Grande do Norte, a taxa de aprovação no primeiro ano do ensino médio saltou de 67,9% para 87,9% em apenas dois anos, enquanto as notas do Saeb, o exame que mede efetivamente o aprendizado, ficaram praticamente estagnadas. O Rio de Janeiro conseguiu algo ainda mais curioso: notas piores no exame e, ainda assim, subida no índice geral.
Quando a aprovação sobe sem que o aprendizado acompanhe, o que está sendo maquiado é a estatística, não a educação. Passar o aluno de ano sem que ele domine o conteúdo produz um efeito perverso e conhecido: empurra o problema para a frente, geralmente para o momento em que esse jovem chega ao mercado de trabalho ou tenta uma vaga na universidade sem a base necessária. Trata-se de uma escolha de gestão que privilegia o número de curto prazo em detrimento da vida real de quem está sendo formado, e isso pesa mais sobre o aluno de escola pública, que não tem outra rede de proteção educacional além daquela que o Estado oferece.
As ilhas que mostram que dá para fazer diferente
Nem tudo é maquiagem, e seria injusto tratar assim. Paraná lidera o ranking nacional com resultados consistentes. O Piauí se tornou destaque nacional em matemática, com avanço de vinte pontos no Saeb, um salto que indica trabalho pedagógico real, não ajuste de régua. O Rio Grande do Sul também mostrou progresso genuíno, sustentado pelas notas do exame e não apenas pelas taxas administrativas. Esses casos provam que o problema não é a falta de solução, é a falta de vontade política de replicá-la em escala nacional. Se alguns estados conseguem, com os mesmos recursos limitados e os mesmos desafios sociais, a pergunta que fica é por que os demais não seguem o exemplo em vez de recorrer ao atalho estatístico.
Um índice que mede o século passado
Há um problema mais profundo por trás do debate sobre maquiagem de números, e ele diz respeito ao que o próprio Ideb foi desenhado para medir. Criado em 2007, o índice cruza taxa de aprovação com desempenho em português e matemática. Fazia sentido na época. Mas o mundo do trabalho e do conhecimento mudou de forma radical desde então, e o instrumento de avaliação não acompanhou essa mudança.
Enquanto o Brasil discute décimos de ponto no Ideb, outros países redesenharam o que significa formar um estudante para o presente. A China tornou a inteligência artificial disciplina obrigatória a partir dos seis anos de idade, ao lado de matemática, dentro do plano quinquenal 2026-2030 que determina a integração da IA a cada etapa da educação básica. Em Pequim, agentes de inteligência artificial já analisam o desempenho individual de cada aluno e geram sequências de exercícios personalizadas em minutos. Em Wenzhou, crianças usam IA generativa para criar avatares digitais, produzindo tecnologia em vez de apenas consumi-la.
O movimento não é isolado. Os Emirados Árabes Unidos tornaram obrigatório um currículo nacional de inteligência artificial do jardim de infância ao ensino médio, alcançando quase um milhão de alunos. A Índia vai tornar a IA obrigatória a partir do terceiro ano escolar no período 2026-27, com um plano de formação para dez milhões de professores. Singapura mantém estratégia nacional de letramento em IA até 2030. Finlândia e Estônia tratam a fluência em inteligência artificial como habilidade cívica básica, no mesmo nível de ler e escrever, e não como especialização técnica reservada a poucos.
O Fórum Econômico Mundial, no Future of Jobs Report 2025, estima que 85 milhões de empregos serão eliminados pela automação até 2030, ao mesmo tempo em que 97 milhões de novos postos surgirão, exigindo habilidades que a maioria das escolas brasileiras simplesmente não ensina. O Ideb não mede pensamento computacional, letramento digital, capacidade de colaborar em ambientes tecnológicos ou de aprender continuamente. Mede o que era relevante há vinte anos, e mede razoavelmente mal até isso.
O que caberia ao Brasil fazer agora
Primeiro, parar de tratar aprovação automática como política pública travestida de avanço educacional. Inflar taxa de aprovação sem sustentar o aprendizado é transferir o prejuízo para o aluno mais vulnerável, que geralmente não tem escola particular, reforço pago ou rede de apoio para compensar a lacuna.
Segundo, atualizar o que o Saeb e o Ideb avaliam, incorporando competências digitais e resolução de problemas do mundo real, sem abandonar o que já funciona em português e matemática.
Terceiro, formar professores para esse novo cenário. A Coreia do Sul tentou implantar livros didáticos de inteligência artificial em 2025 e recuou porque os docentes não estavam preparados. O Brasil investe mal na formação de professores e corre o risco de repetir o mesmo erro, só que sem ter tentado antes.
Quarto, retirar a educação do calendário eleitoral. Um índice que sobe artificialmente perto de eleições e depois cobra a conta nos anos seguintes serve à propaganda de governo, não ao aluno.
O Brasil vai comemorar seu 4,3. Parte desse número é fruto de trabalho real, como mostram Paraná, Piauí e Rio Grande do Sul. Outra parte é contabilidade que disfarça estagnação de avanço. A diferença entre as duas coisas é exatamente o que deveria orientar qualquer política educacional séria, e é justamente isso que falta discutir quando a manchete anuncia apenas um recorde.
Fontes consultadas
- Poder360 — Paraná fica no topo do ranking da educação no Ideb de 2025 — 05/08/2026 — link
- Bem Paraná — Paraná lidera o Ideb 2025, e Secretário da Educação rebate críticos — link
- Tribuna do Norte — Governo projeta alta do Ideb, mas aprendizagem não avança no Estado — link
- Brasil de Fato — Sindicato denuncia manobra de Claudio Castro para maquiar dados do Ideb com aprovação automática no Ensino Médio — 04/12/2025 — link
- Gizmodo Brasil — A China Reinventa a Educação: Inteligência Artificial Será Matéria Obrigatória Desde os 6 Anos — 16/04/2025 — link
- SAPO 24 — Emirados Árabes Unidos incluem Inteligência Artificial no currículo educativo desde o jardim de infância — 04/05/2025 — link
- Curto News — South Korea backtracks on billion-dollar AI textbook project after criticism from teachers and parents — 17/10/2025 — link