terça-feira, 8 de setembro de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
Contraluz

Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Plano de governo de Renan Santos e a extinção das favelas

Plano de governo de Renan Santos e a extinção das favelas
Foto: K / Pexels

O plano de governo de Renan Santos, um dos fundadores do MBL, promete extinguir favelas, acabar com o sistema de cotas e reformular o Bolsa Família. Segundo O GLOBO, a proposta foi divulgada recentemente e já acendeu debates. Não é surpresa. A receita é antiga: um discurso de “nova política” que, ao ser examinado, revela o mais puro neoliberalismo raso, temperado com punitivismo populista.

O que significa “extinguir favelas” no plano de governo Renan Santos?

A promessa de extinguir favelas merece atenção especial. Urbanizar uma favela não é simplesmente passar asfalto, pintar fachadas e mudar o nome. Urbanizar significa integrar infraestrutura, garantir moradia digna, saneamento, transporte, acesso a serviços públicos e, sobretudo, respeitar quem vive ali há décadas. É um processo complexo, que exige escuta ativa e políticas habitacionais sérias. Infelizmente, o tom usado por Renan Santos sugere algo bem diferente. “Acabar com as favelas”, do jeito que foi comunicado, soa mais como remoção do que como urbanização. E nós sabemos o que remoção significa nesse contexto: despejar famílias vulneráveis, muitas vezes sem plano B, empurrando a pobreza para periferias ainda mais distantes ou engrossando a população em situação de rua. Em outras palavras, uma limpeza social travestida de promessa eleitoral. A ausência de um plano detalhado, com garantias de reassentamento e participação comunitária, confirma a suspeita: é uma ideia vazia, que aposta no simplismo para conquistar votos, mas que, se aplicada, causaria tragédias humanas.

O plano de governo de Renan Santos também ataca o sistema de cotas e o Bolsa Família. Dois pilares que, com todos os seus defeitos e pontos de melhoria, representam conquistas importantes para a justiça social no Brasil. As cotas, vale lembrar, não foram inventadas por capricho ideológico. Elas surgem de um reconhecimento: o racismo estrutural e a desigualdade de oportunidades não se curam sozinhos. Após décadas de políticas universalistas que fracassaram em reduzir abismos raciais e sociais, ações afirmativas se mostraram um mecanismo eficaz de inclusão. Dados de universidades que adotaram cotas mostram aumento significativo da diversidade e desempenho acadêmico equivalente ou superior ao de alunos não cotistas. Abolir isso em nome de uma suposta meritocracia é ignorar a realidade do país e agradar um eleitorado que se incomoda em ver jovens negros e pobres ocupando espaços antes exclusivos. Quanto ao Bolsa Família, a crítica ao modelo atual pode até ter algum fundamento, mas jogar fora o programa sem apresentar uma rede de proteção mais robusta é uma temeridade. Em um país com milhões de famílias dependentes dessa transferência de renda para sobreviver, falar em “reformular” sem dar detalhes é cortina de fumaça para políticas de austeridade que sangram os mais pobres. O neoliberalismo sempre aparece com essa conversa: o Estado é ineficiente, vamos enxugar, privatizar, cortar. E a conta, invariavelmente, recai sobre quem menos pode pagar.

A velha embalagem da “nova política”

Renan Santos é apresentado como um outsider, alguém que vem para romper com o sistema. Mas basta olhar para o conteúdo das propostas para ver que o discurso de renovação é apenas uma embalagem moderna para um conteúdo velho e surrado. Trata-se da mesma agenda econômica que ganhou força no mundo nas últimas décadas e que, nos Estados Unidos, teve em Donald Trump um de seus expoentes mais desastrosos. Coincidência ou não, o MBL tem vizinhança ideológica com esse tipo de política: desprezo pelo Estado social, desregulamentação, ataque a direitos trabalhistas, criminalização da pobreza e uma retórica que transforma a desigualdade em fracasso pessoal. A “nova política” deles é tão nova quanto uma velha calça jeans que insistem em nos vender como a última moda.

O MBL nasceu em um caldo de cultura de revolta difusa, misturando libertarianismo de YouTube, antipetismo visceral e uma estética jovem que seduziu muitos. Mas o tempo mostrou que, por trás da irreverência, havia um projeto de poder bem definido. A defesa do impeachment de Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade, a aproximação com setores do lavajatismo e a defesa intransigente de reformas que retiram direitos são marcas indeléveis desse grupo. O plano de governo de Renan Santos apenas escancara o que sempre esteve ali: um conservadorismo econômico radical, aliado a uma visão punitivista da pobreza. Não há nada de novo nisso. É o mesmo neoliberalismo que fracassou em tantos lugares, da América Latina aos Estados Unidos.

Além disso, a trajetória do MBL mostra uma incrível capacidade de trocar de sigla sem trocar de essência. Já foi Missão, Renova, e continuará se multiplicando em outras fachadas. Mas a matriz ideológica é a mesma, e nomes como Kim Kataguiri seguem sendo a referência intelectual do movimento. O plano de governo de Renan Santos não é uma ruptura: é a continuação natural de um projeto político que acredita em soluções simplórias para problemas complexos, que enxerga o mercado como entidade infalível e que trata a questão social com um paternalismo punitivo. É um discurso que ecoa em uma parcela da classe média que se sente abandonada pelas transformações do país, mas que, em vez de buscar entender as causas estruturais da desigualdade, prefere apontar o dedo para os mais vulneráveis.

O centro como espaço de crítica consciente

Quem acompanha este espaço sabe que não me alinho automaticamente com todas as pautas da esquerda. Há excessos e distorções que também merecem críticas. Mas, assim como critico os erros de um campo, não posso me calar diante de propostas que, travestidas de modernidade, ameaçam aprofundar feridas históricas. O plano de governo de Renan Santos é um prato cheio para quem quer uma política supostamente “sem filtro”, mas que, na prática, repete todos os vícios que diz combater. O “combate às favelas” sem urbanização real não é nada além de uma guerra contra os pobres. O fim das cotas é uma negação da nossa história escravocrata e excludente. E a reformulação genérica do Bolsa Família, num vácuo de propostas concretas, é um risco que nenhum país sério deveria correr.

O Brasil não precisa de aventureiros que vendem o caos como solução. Precisa de debate honesto, políticas públicas baseadas em evidências e, acima de tudo, respeito pelas pessoas que mais sofrem. Quando alguém diz que vai “extinguir favelas” sem explicar como, desconfie. Porque, na maioria das vezes, o que está por trás dessa promessa é a velha e conhecida vontade de varrer a pobreza para debaixo do tapete.

Fontes consultadas

  • Gazeta do Povo — Renan Santos propõe “desfavelização”, superpresídios e fim do Bolsa Família — 21/07/2026 — link
  • Correio 24 Horas — Plano de governo de Renan Santos à presidência propõe acabar com favelas, cotas e Bolsa Família — 21/07/2026 — link
  • O Tempo — Renan Santos propõe acabar com favelas, Bolsa Família e cotas em plano de governo para eleições — 21/07/2026 — link
  • Metrópoles — Fim de favelas, cotas e mais: conheça plano de governo de Renan Santos — 21/07/2026 — link
  • Jamildo (Jornal do Commercio) — Renan Santos apresenta prévia de plano de governo com proposta de extinguir Bolsa Família e acabar com cotas — 21/07/2026 — link
  • SciELO Brasil — Desempenho acadêmico e o sistema de cotas no ensino superior: evidência empírica com dados da Universidade Federal da Bahia — link
Publicidade