sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Política

Datafolha Lula 2026: a vantagem que não é vitória

Datafolha Lula 2026: a vantagem que não é vitória
Foto: Edmond Dantès / Pexels

A pesquisa Datafolha Lula 2026 divulgada em 24 de julho traz números que, à primeira vista, parecem confortáveis para o presidente. Lula tem 40% das intenções de voto no primeiro turno contra 32% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, a dianteira cai para 48% a 43%, a margem mais estreita já registrada para um petista diante de um candidato com o sobrenome Bolsonaro. Mas o dado que merece mais do que uma manchete otimista no QG do Planalto é outro: a rejeição de ambos está praticamente empatada (48% para Flávio, 46% para Lula) e 37% do eleitorado ainda não faz ideia de em quem vai votar. Traduzo: três a cada dez brasileiros estão esperando algo que nenhum dos dois lados entregou até agora.

O que a pesquisa Datafolha Lula 2026 esconde

Leio essas planilhas há algum tempo e lembro que, em julho de 2022, o mesmo instituto mostrava Lula com 47% contra 29% de Jair Bolsonaro no primeiro turno e vantagem de 55% a 35% na simulação de segundo turno. A diferença não está só nos números: o desgaste do governo atual é real e a sombra do ex-presidente inelegível segue alongada. Os 3% que espontaneamente citam Jair Bolsonaro, mesmo sabendo que ele não pode concorrer, mostram que Flávio não herda automaticamente o pai. Mas também revelam que há um núcleo duro que não se move por razão pragmática, e sim por lealdade afetiva. Se Flávio conseguir se descolar da caricatura de “filho de” e encarnar uma figura própria, o segundo turno pode ser um pesadelo para o petismo.

Ao mesmo tempo, a rejeição de Lula subiu quatro pontos percentuais nos últimos três meses, segundo a série histórica do Datafolha. É um movimento discreto, porém constante. O presidente não enfrenta um adversário com a musculatura de Jair em 2022, mas carrega o peso de uma economia que não decola para a classe média e de uma comunicação que, por vezes, insiste em reviver fantasmas do passado em vez de pavimentar o futuro. O eleitor que rejeita os dois não é apático: está exausto. E é justamente aí que a campanha oficial, com seu arsenal de ataques e contra-ataques, perde o bonde.

Os 37% que decidem tudo

Trinta e sete por cento de indecisos não são um detalhe estatístico. Em 2022, a dois meses da eleição, esse número era de 18%. O que mudou? A sensação de que o confronto entre extremos não resolve as contas do supermercado nem a fila no SUS. Em conversas com eleitores que ainda não decidiram, feitas por canais independentes de monitoramento de opinião, o que aparece não é ideologia, e sim cansaço. “Nenhum dos dois me representa” virou a frase padrão do eleitor urbano de 2026. E isso não é vitória para ninguém.

Enquanto o PT gastar energia em enquadrar Flávio como ameaça golpista, sem conectar essa narrativa à vida concreta das pessoas, o voto útil anti-bolsonarista pode não se repetir com a mesma força. E enquanto Flávio Bolsonaro repetir o script do pai, sem oferecer um programa econômico crível que vá além da retórica do “Deus, pátria, família”, o eleitorado de centro vai permanecer órfão. A margem estreita no segundo turno é um aviso: se o governo Lula não entregar crescimento robusto no PIB e redução efetiva da inflação nos alimentos nos próximos 12 meses, a rejeição pode superar a intenção de voto até outubro de 2026.

A pesquisa Datafolha Lula 2026 acende outro alerta quando olhamos para cortes por renda. Entre eleitores com renda familiar acima de cinco salários mínimos, Flávio já aparece numericamente à frente em alguns cenários espontâneos. É o extrato que mais sentiu a perda de poder aquisitivo e que, tradicionalmente, decide eleições presidenciais no segundo turno. Se o PT não abandonar a soberba de achar que o antipetismo morreu com Jair Bolsonaro, será engolido por um fenômeno mais silencioso: o eleitor que simplesmente não vai às urnas ou que digita um número qualquer no olho mecânico da polarização.

É sintomático que, no mesmo levantamento, 62% dos entrevistados afirmem acreditar que o país está no rumo errado. Não importa se a oposição cavou esse sentimento: o dado está posto. A campanha que conseguir traduzir esse descontentamento em projeto de país, sem cair no panfleto ideológico, leva não só os 37% de indecisos, mas também uma fatia relevante dos que hoje rejeitam os dois por antecipação. Minha aposta é que esse discurso não virá de quem está no ringue principal, mas talvez de uma terceira via mais organizada do que em 2018. Mas isso já é assunto para outra coluna.

Fontes consultadas

  • Revista Fórum — Datafolha mostra disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro após novo tarifaço de Trump e foto com Sicário — 24/07/2025 — link
  • Revista Fórum — Datafolha: Lula tem 40%, e Flávio Bolsonaro, 32% no primeiro turno — 24/07/2025 — link
  • Brasil 247 — Datafolha: Lula tem 48% contra 43% de Flávio Bolsonaro no segundo turno — 24/07/2025 — link
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