sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

As tarifas de Trump contra Canadá e México são um tiro no pé

As tarifas de Trump contra Canadá e México são um tiro no pé
Foto: Héctor Berganza / Pexels

As tarifas de Trump contra o Canadá e o México, anunciadas sob o pretexto de conter o tráfico de fentanil, são muito mais do que uma medida de segurança: representam um desserviço à economia americana e ao consumidor. Conhecido por sua política externa errática, o governo republicano brandiu a caneta tarifária como se fosse um remédio mágico para todos os males, ignorando décadas de integração produtiva e os laços econômicos profundos com os vizinhos. O resultado, já visível nas reações dos mercados e dos governos afetados, confirma o que economistas de diferentes orientações vinham alertando: essa estratégia é um tiro no pé.

O protecionismo não é, em si, um inimigo do interesse nacional. Há setores em que o Estado deve proteger a indústria nascente, garantir padrões ambientais e trabalhistas, corrigir assimetrias tecnológicas. Mas o que vemos agora não é um plano industrial. É improviso, e dos piores. As tarifas de Trump não nasceram de um debate cuidadoso sobre cadeias de suprimento ou de uma negociação diplomática sólida; surgiram como um gesto de força, desses que costumam agradar plateias eleitorais, mas que desorganizam a economia real.

O verdadeiro impacto das tarifas de Trump

Para entender o estrago, basta olhar para a indústria automotiva. Canadá e México não são parceiros genéricos; são os dois maiores fornecedores de autopeças dos Estados Unidos. Um veículo montado em Detroit pode ter componentes que cruzaram as fronteiras várias vezes antes de chegar ao consumidor final. Segundo a Reuters, a aplicação de uma tarifa de 25% sobre todos os bens mexicanos e canadenses romperia esse fluxo e encareceria o preço dos carros em até US$ 3 mil por unidade, conforme projeção do Anderson Economic Group. Não se trata de proteger empregos americanos; trata-se de sufocá-los com custos mais altos, perda de competitividade e provável fuga de investimentos para outras regiões.

Agricultura, retaliação e o bolso do americano

No campo, o cenário é igualmente amargo. O México é o principal destino do milho, da carne suína e dos laticínios dos Estados Unidos. Assim que as tarifas de Trump foram anunciadas, o governo mexicano deixou claro que responderia com tarifas direcionadas a produtos agrícolas de estados-chave na eleição americana, uma retaliação cirúrgica, conforme relatado pelo The New York Times. Produtores rurais do Meio-Oeste, muitos dos quais apoiaram o presidente republicano, podem ver seus mercados encolherem da noite para o dia. Não é teoria: durante a guerra comercial com a China, em 2018, os agricultores americanos perderam parcela significativa das exportações e só sobreviveram à custa de bilhões de dólares em subsídios emergenciais, financiados pelo contribuinte. Repetir essa experiência com os vizinhos é uma irresponsabilidade fiscal e social.

O impacto vai além dos setores específicos e chega ao cotidiano das famílias. Uma análise da consultoria Trade Partnership Worldwide, encomendada pela National Retail Federation e repercutida pelo The Washington Post, estimou que as tarifas de Trump sobre Canadá e México poderiam custar US$ 1.500 extras por ano a uma família americana média. Esse número leva em conta não apenas bens finais, mas o encarecimento de insumos que contaminam toda a cadeia. Quando a logística fica mais cara, o preço dos alimentos, dos eletrônicos e do material de construção sobe. E quem mais sente é quem já vive com o orçamento apertado.

Incerteza que espanta investimento e enfraquece o país

Mais grave do que o custo imediato é a instabilidade que essas medidas injetam no ambiente de negócios. Empresas precisam de previsibilidade para planejar investimentos de longo prazo. Nenhuma montadora construirá uma nova fábrica, nenhum produtor rural ampliará a área plantada se não souber qual será a tributação na próxima semana. O vai e vem de decretos, pausas e ameaças transforma a política comercial em um jogo de pôquer que afugenta o capital. O México e o Canadá, por sua vez, não ficarão parados. Já buscam acelerar acordos com a União Europeia, a Ásia e o Mercosul, mercados que, aos poucos, substituirão os fornecedores americanos. Ou seja, a longo prazo, as tarifas de Trump enfraquecem a posição dos Estados Unidos na arquitetura global do comércio.

É nesse ponto que minha crítica à ortodoxia neoliberal e minha rejeição à abordagem trumpista se encontram. O livre-comércio sem regras, imposto por décadas de acordos que favoreciam o capital financeiro e as multinacionais, esvaziou parques industriais e comprimiu salários. Mas a resposta a essa distorção não pode ser um nacionalismo tosco que opera por choque e despreza a realidade das cadeias produtivas. O que faltou ao velho globalismo e sobra agora no novo unilateralismo é a ausência de um projeto de país que enxergue a economia como um organismo complexo, e não como uma coleção de slogans.

Protecionismo inteligente existe, só não é este

Uma política comercial soberana precisaria combinar investimento público em tecnologia, exigência de conteúdo local com prazo de adaptação, regras ambientais coordenadas com os parceiros e, sim, tarifas cirúrgicas quando houvesse dumping ou risco de desindustrialização abrupta. Mas nunca tarifas generalizadas, impostas de supetão, sobre os dois maiores parceiros comerciais do país, com quem se compartilham não apenas fábricas, mas famílias, culturas e um destino geopolítico. O que Trump oferece não é soberania; é isolacionismo de curto prazo, que enfraquece a posição negociadora americana e abre flancos para a China ocupar os espaços deixados.

Enquanto o Executivo brinca de guerra comercial, o cidadão comum observa o aumento do custo de vida, o agricultor reza para que o México não revide e o operário da linha de montagem teme a próxima parada na produção. As tarifas de Trump não consertam o fentanil, não recuperam empregos perdidos para a automação e não reequilibram a balança comercial. Servem, isso sim, como cortina de fumaça para uma gestão que prefere o gesto teatral ao trabalho duro da diplomacia e do planejamento econômico.

Não se engane: criticar essa desastrada ofensiva protecionista não me faz um apologista do livre-comércio desregulado. Apenas me recuso a fingir que a ruína de uma família do Missouri é um ato de patriotismo. A defesa do trabalhador americano passa por educação, infraestrutura e negociação, não por medidas que elevam o preço do que ele compra e diminuem a demanda pelo que ele produz.

Fontes consultadas

  • CBS News — Tariffs are likely to push auto prices higher. Should you buy a new car now? — 07/03/2025 — link
  • Farm Policy News (University of Illinois) — Trump Threatens 30% Tariffs on Mexico and the EU — 14/07/2025 — link
  • Trade Partnership Worldwide (relatório encomendado pela National Retail Federation) — Estimated Impacts of Proposed Tariffs on Imports — 11/2024 — link
  • FreightWaves — Retail trade groups: 25% tariffs a ‘crushing’ burden for American families — 04/03/2025 — link
  • Yeutter Institute, University of Nebraska — Trade War Implications for U.S. Agriculture: Round Two — 12/03/2025 — link
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