Falta de notícia na CPI das Apostas escancara mídia conivente
A falta de notícia que tomou conta da cobertura da CPI das Apostas na última semana não foi um acaso. Foi uma escolha. Enquanto as manchetes se ocupavam com fofocas de reality show e declarações vazias de influenciadores, uma testemunha contava, em sessão oficial, detalhes de um esquema de lavagem de dinheiro que, segundo seu relato, envolveria altas figuras do Congresso. O silêncio que se seguiu é a mais clara demonstração de como a imprensa tradicional brasileira se tornou um gargalo antidemocrático, que decide o que o cidadão deve ou não saber a partir de interesses que nada têm de jornalísticos.
Não sou ingênuo. Sei que a mídia privada vive de audiência, e que um depoimento técnico sobre finanças ilícitas perde em clicks para um barraco entre famosos. Mas o papel constitucional da imprensa não se mede por cliques. Se um veículo se arvora em formador de opinião, ele não pode simplesmente ignorar uma informação que diz respeito à idoneidade de quem faz as leis. A omissão deliberada é tão grave quanto a mentira declarada.
O que a falta de notícia escondeu
Segundo reportagem da Agência Pública, publicada em 20 de abril de 2025, a testemunha, um ex-executivo de uma plataforma de apostas, afirmou que parte dos recursos obtidos com jogos clandestinos era direcionada a campanhas eleitorais, com conhecimento de um parlamentar cujo nome foi citado na oitiva. A sessão, realizada pela CPI das Apostas, não foi transmitida ao vivo pelos grandes canais de notícia. Os portais de maior alcance deram ao fato, no máximo, algumas linhas em notas secundárias. No dia seguinte, o assunto já havia desaparecido.
Essa falta de notícia não pode ser explicada apenas por prioridades editoriais. É uma questão de poder. A concentração da mídia no Brasil faz com que poucos grupos decidam o que ganha relevo público. Se o depoimento não tivesse relevância, por que foi colhido oficialmente? Se tinha relevância, por que foi sufocado? A resposta reside na conveniência. O mesmo oligopólio midiático que se apresenta como defensor da democracia comete, com regularidade, o ato mais antidemocrático que existe: subtrair do cidadão a informação necessária para fiscalizar seus representantes.
Isso me remete a um dos pilares da minha posição política, que muitos neste país polarizado preferem ignorar. Sou de centro, e por isso incomodo tanto a esquerda quanto a direita. Defendo políticas sociais robustas, mas também a responsabilidade fiscal. Entendo o valor do mercado, mas repudio o neoliberalismo e a falácia do livre mercado, que nunca existiu de verdade. O que vejo nesse episódio da CPI é justamente a face mais perversa desse falso mercado: um arranjo de cartel midiático, em que a “liberdade de imprensa” significa liberdade para alguns empresários decidirem o que é notícia, enquanto sufocam a pluralidade. A cobertura enviesada ou inexistente de certos temas não é uma falha, é um projeto.
A falsa neutralidade da mídia concentrada
Não estou aqui para defender a CPI ou qualquer partido. Aliás, é provável que o silêncio interesse a mais de uma legenda. Mas meu ponto é justamente esse: ao deixar de noticiar um fato grave, a imprensa faz política de maneira covarde. Em vez de permitir que o público forme sua opinião a partir dos fatos, ela impõe uma pauta. E, no vácuo, prosperam a desinformação e a polarização.
A falta de notícia sobre a sessão da CPI das Apostas não é um episódio isolado. Lembremo-nos de como certas investigações da Lava Jato receberam cobertura diuturna, enquanto denúncias contra políticos do mesmo espectro ideológico dos donos dos jornais eram tratadas com parcimônia. Não se trata de defender corruptos, mas de exigir isonomia. O que está em jogo é o direito à informação, que é tão fundamental quanto o direito ao voto.
O leitor poderia me perguntar: e o que fazer? A resposta passa por duas frentes. A primeira é a regulação. Precisamos de uma legislação que garanta a transparência dos meios de comunicação, com mecanismos que impeçam a concentração excessiva e assegurem espaço para o jornalismo independente, não estatal, mas diverso. Isso não é censura, é soberania popular. A segunda frente é o apoio à mídia alternativa. Portais como aquele que publicou a reportagem, a Agência Pública, são ilhas de resistência num mar de conivência. O cidadão precisa buscá-los, financiá-los, compartilhá-los.
Enquanto isso não acontece, a falta de notícia seguirá sendo a arma silenciosa que protege os poderosos. É por isso que, mesmo que meu texto não alcance milhões, eu considero obrigação de todo colunista digno do ofício jogar luz sobre o que os grandes conglomerados escondem. Não por militância, mas por decência.
Um projeto de emudecimento
O caso da CPI das Apostas é emblemático porque escancara um projeto de emudecimento. Quando uma testemunha jura dizer a verdade e aponta caminhos para investigação, e os veículos de comunicação coletiva fingem que aquilo não existiu, a democracia fica capenga. A sociedade civil perde a chance de pressionar, e as instituições se acomodam. Isso não é omissão, é participação indireta na blindagem.
Os defensores do atual modelo costumam alegar que a audiência é soberana e que as empresas apenas oferecem o que o público deseja. É um argumento cínico, pois são essas mesmas empresas que condicionam a audiência por décadas, com uma dieta de entretenimento raso e jornalismo pasteurizado. O cidadão que cresce sob essa influência não “escolhe” consumir notícia séria; ele sequer sabe que ela existe. Essa é a “mão invisível” que os neoliberais adoram: ela esconde o que não interessa, enquanto repete o mantra da livre iniciativa.
Por isso, a falta de notícia sobre a CPI não me indigna apenas como jornalista. Indigna como brasileiro. Não é a primeira vez que isso acontece, e infelizmente não será a última. Mas é nossa obrigação, como formadores de opinião, não deixar que esses fatos caiam no esquecimento. A notícia existe, foi publicada, está nos autos. A pergunta que fica é: quem decide o que você precisa saber?
Não aceito que seja o dono de um jornal. Não aceito que seja o algoritmo de uma rede social. A escolha deve ser sua, e a base para ela é a informação completa. Sem isso, não há democracia, só fachada.
Fontes
- Agência Pública, reportagem sobre depoimento na CPI das Apostas, 20 de abril de 2025.