sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
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Política

Michelle Bolsonaro perdoa Flávio: reconciliação ou cálculo eleitoral?

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Foto: Wil Carranza / Pexels

Michelle Bolsonaro perdoa Flávio: reconciliação ou cálculo eleitoral?

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro aceitou ontem o pedido público de desculpas do senador Flávio Bolsonaro e declarou que vai “reunir um grande exército de pessoas de bem” para a campanha presidencial. Quem acompanhou a novela familiar dos Bolsonaro no último mês sabe que esse desfecho não é sobre mágoa curada. É sobre matemática eleitoral.

Faz 30 dias que Michelle publicou dois vídeos somando 26 minutos onde dizia ter sido humilhada, maltratada e esfaqueada pelas costas pelo enteado. O motivo? Ela criticou o diretório do PL no Ceará por apoiar Ciro Gomes ao governo estadual. Flávio, então presidente nacional do partido, foi ríspido: disse que ela “não entendia nada de política” e que “havia chegado ontem”. Michelle chamou de “punhalada”.

Agora, com intermediação da senadora Damares Alves e da governadora Celina Leão, as pazes foram seladas em vídeos trocados. Michelle perdoa, Flávio agradece, e ambos invocam o nome de Jair Bolsonaro como o grande unificador. Lindo no roteiro. Mas o que mudou em 30 dias além das pesquisas internas?

A conta que não fecha

O Datafolha de maio já acendia todos os alertas. Flávio Bolsonaro tem 46% de rejeição — a mais alta entre todos os pré-candidatos, empatado com Lula. Michelle tem 31%. No segundo turno, Flávio marca 43% contra 47% de Lula. Michelle, mesmo sendo menos conhecida (27% contra 34% de Flávio), também marca 43%.

Traduzindo: com metade do recall, ela entrega o mesmo resultado. E com 15 pontos percentuais a menos de rejeição.

Some-se a isso o escândalo dos áudios com Daniel Vorcaro. Flávio foi gravado pedindo R$ 134 milhões ao banqueiro — hoje preso pela Polícia Federal por fraude — para financiar um filme sobre o pai. A frase “já tem muita conta pra pagar” grudou na campanha como chiclete no sapato.

A campanha de Flávio não está apenas patinando. Está afundando. E Michelle é a boia.

O que Michelle entrega que Flávio não consegue

Michelle preside o PL Mulher. Em 2024, ela percorreu o Brasil montando diretórios nos 27 estados e ajudou a eleger 1.005 mulheres. O eleitorado feminino conservador e evangélico é dela. Não é do Flávio. Nunca foi.

Quando ela publicou os vídeos em junho, esse eleitorado rompeu com Flávio. Mulheres que se identificaram com a história de humilhação — e não foram poucas — simplesmente não votariam em quem tratou a figura feminina mais importante do bolsonarismo como uma intrusa.

A reconciliação tenta costurar esse rasgo. Flávio precisa desesperadamente que Michelle traga de volta o voto feminino que ele nunca teve e que, depois dos vídeos, passou a rejeitá-lo ativamente. Não é questão de gosto pessoal. É condição de sobrevivência eleitoral.

A pergunta que fica

O problema é que política não funciona como novela. Você não pode passar 26 minutos dizendo que foi humilhada e 30 dias depois aparecer sorrindo ao lado do humilhador como se nada tivesse acontecido. Parte do eleitorado feminino que se solidarizou com Michelle vai se sentir traída.

“Ué, mas ela não disse que foi uma punhalada? E agora tá tudo bem?”

A resposta que a campanha tentará vender é “união pelo Brasil” e “pelo nosso líder Jair Bolsonaro”. Para o núcleo duro bolsonarista, esse discurso cola. Mas para a mulher conservadora que não é militante, que apenas simpatizava com Michelle e se decepcionou com Flávio, o perdão instantâneo soa mais como capitulação do que como grandeza.

E tem outro fator: os vídeos de junho não desapareceram. Estão nos celulares, nos grupos de WhatsApp, nos Stories. A oposição vai usá-los na propaganda eleitoral. Cada vez que Michelle aparecer na TV pedindo voto para Flávio, o espectador vai lembrar da mulher chorando e dizendo que foi esfaqueada pelo candidato.

Por que agora?

Três meses antes da eleição, o calendário não perdoa. Se a reconciliação não acontecesse agora, não aconteceria mais. Michelle precisava entrar em campo antes de agosto para ter tempo de percorrer o país, gravar conteúdos, participar de eventos e, principalmente, transferir voto.

Transferência de voto não acontece por decreto. Acontece por exposição repetida, por associação de imagem, por campanha corpo a corpo. Michelle tem três meses para fazer o eleitorado feminino esquecer que chamou Flávio de algoz e passar a vê-lo como aliado.

É uma corrida contra o relógio. E contra a própria história que ela contou.

O que esperar

Flávio será candidato. A reconciliação não é sobre substituí-lo — é sobre viabilizá-lo. Michelle não quis ou não pôde ser a cabeça de chapa, e Flávio, apesar de tudo, é o ungido de Jair Bolsonaro. O patriarca decidiu, e a família se alinhou.

Mas alinhamento familiar não é alinhamento eleitoral. A grande incógnita de 2026 é se o “grande exército” que Michelle promete reunir vai marchar para a urna ou vai ficar no quartel. Porque entre perdoar em público e votar em particular, a distância pode ser maior do que os marqueteiros imaginam.

Fontes consultadas

  • Correio Braziliense — Michelle Bolsonaro sela reconciliação com Flávio e convoca ‘grande exército’ — link
  • Metrópoles — Michelle faz as pazes com Flávio Bolsonaro — link
  • G1 — Datafolha: Lula tem 40% e Flávio Bolsonaro 31% das intenções de voto — link
  • Terra — Michelle x Flávio Bolsonaro: veja todos os capítulos do último embate — link
  • G1 — Flávio Bolsonaro convida Michelle para ajudar em sua campanha — link
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