sábado, 1 de agosto de 2026 Opinião e análise por Denis Ribeiro
Contraluz

Notícia com ponto de vista — por Denis Ribeiro

Política

Crise de Flávio Bolsonaro revela vácuo estratégico no PL

Crise de Flávio Bolsonaro revela vácuo estratégico no PL
Foto: michelle guimarães / Pexels

A crise de Flávio Bolsonaro não é fruto do acaso. É o resultado de uma sucessão de erros não forçados, como bem apontou William Waack na CNN Brasil no dia 22 de julho. Quem acompanha a política brasileira vê um candidato que, partindo de uma posição privilegiada na oposição, parece estar em queda livre, e não por causa do adversário, mas por sua própria incompetência de campanha.

Flávio nunca foi o mais carismático dos filhos de Jair Bolsonaro. Carlos tinha o instinto político, Eduardo a retórica inflamada. Flávio sempre foi o discreto, o operador dos bastidores, aquele que articulava nos corredores enquanto o pai e os irmãos ocupavam os holofotes. O problema é que agora ele é obrigado a atuar num papel que claramente não domina: o de protagonista. E o que vemos não é estratégia, é desorientação pura.

A crise de Flávio Bolsonaro em três atos

Os números confirmam o mau momento. Segundo pesquisa Quaest divulgada em 15 de julho pela Gazeta do Povo, Lula abriu 12 pontos de vantagem sobre Flávio no primeiro turno. Em abril, a diferença era de apenas cinco. A rejeição de Flávio saltou para 57%, maior que a de Lula, que caiu cinco pontos no mesmo período. Entre os eleitores independentes, o senador perdeu cinco pontos enquanto Lula ganhou 13. Até na direita não bolsonarista ele recuou de 84% para 74%.

Mais alarmante ainda é a métrica de firmeza do voto: apenas 62% dos eleitores de Flávio dizem que o voto é definitivo, contra 77% de Lula, de acordo com o Real Time Big Data citado pelo JOTA. Dois em cada três eleitores de Flávio estariam dispostos a migrar por voto útil. Isso não é fidelidade partidária; é um balão de ar quente prestes a esvaziar.

E o que Flávio fez para reverter esse cenário? Acumulou crises. Brigou publicamente com a madrasta Michelle Bolsonaro, ela mesma disse que foi “humilhada e apunhalada” pelo enteado. Enrolou-se no escândalo do banco Master. Foi filmado pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. E, como cereja do bolo, reuniu dezenas de embaixadores estrangeiros para falar de urnas eletrônicas, tema que nem o centrão quer comprar. Todas essas informações foram noticiadas pela CNN Brasil em 22 de julho.

Vácuo de liderança e a sombra do pai

Há uma hipótese que explica bem essa crise de Flávio Bolsonaro: não há estratégia porque não há quem a conceba. Jair Bolsonaro está inelegível e isolado politicamente. O PL apostou no filho 01 como herdeiro natural, mas sem o pai na linha de frente para organizar o campo, Flávio revelou-se um candidato sem repertório próprio. Ele repete os temas do pai sem o timing do pai. Fala para a franja da franja quando precisava conquistar o centrão. Briga com a madrasta quando precisava de união familiar. Corteja embaixadores quando precisava cortejar governadores.

A crise não é apenas de imagem; é de competência política. Flávio tenta consertar cada erro com outro erro, como quem se atola ao tentar sair do atoleiro. A três meses da eleição, a pergunta que o PL precisa fazer não é “como recuperamos Flávio?”, mas sim se ele ainda é recuperável.

Michelle Bolsonaro como alternativa

Enquanto isso, Michelle Bolsonaro já aparece como alternativa viável. Pesquisas do Meio/Ideia publicadas pela VEJA mostram que homens preferem Michelle a Flávio num eventual segundo turno contra Lula, 42,1% contra 34,2%. A ex-primeira-dama tem rejeição menor e um trunfo que o enteado não tem: o eleitorado evangélico feminino. É um sinal claro de que o núcleo duro bolsonarista está cansado de esperar que Flávio aprenda o ofício na marra.

Não estou aqui para torcer contra Flávio. Aliás, respeito o jogo democrático e acho legítimo que ele se candidate. Mas uma campanha não vive apenas de sobrenome. É preciso proposta, tato político e capacidade de construir pontes. Flávio tem demonstrado exatamente o oposto: queima pontes onde deveria pavimentá-las.

A crise de Flávio Bolsonaro é também uma crise do projeto de poder da família Bolsonaro. Sem o patriarca como fiador, o herdeiro não se sustenta. O PL, que apostou todas as fichas no nome, começa a perceber que talvez tenha feito a aposta errada. Resta saber se ainda há tempo para corrigir a rota, ou se o barco já está afundando.

Fontes consultadas

  • CNN Brasil — Waack: Flávio acumula crises criadas por sua própria campanha — 22/07/2026 — link
  • Gazeta do Povo — Pesquisa Genial/Quaest para presidente: confira os números — 15/07/2026 — link
  • Gazeta do Povo — Pesquisa: Flávio Bolsonaro perde apoio de independentes e direita — 15/07/2026 — link
  • JOTA — Pesquisa mostra empate técnico com Lula e fragilidade oculta de Flávio Bolsonaro — link
  • Gazeta do Povo — Michelle diz que foi humilhada por Flávio após divergência no PL: ‘foi uma punhalada’ — 24/06/2026 — link
  • Metrópoles — Flávio Bolsonaro questiona urnas eletrônicas em reunião com embaixadores — link
  • Gazeta do Povo (via ND Mais/Brasil de Fato) — Pesquisa Meio/Ideia mostra Lula à frente de Flávio; Michelle também é testada — 08/07/2026 — link
Publicidade